terça-feira, 1 de setembro de 2015

O FIO DE BIGODE
Crônica publicada hoje (01/09) no Diario de Caratinga.

Em meio à grota, envolto pelo verde da mata e orquestra dos pássaros, situava uma pequena casa com a arquitetura típica das moradias rurais. Armada com troncos robustos manualmente plainados, paredes de barro embranquecidas com cal, janelas e portas de madeira tingidas pelo azul escuro e as telhas cumbuca iniciando seu traçado pela cumeeira encobriam o lar e completavam a imagem daquele cenário.
A família era simples, porém extensa, Sô Manoel e Dona Sebastiana dividiam a casa com sua prole numerosa; eram doze filhos, sendo sete homens e cinco mulheres. Mas na casa, a família nunca estava sozinha, sempre tinha alguém de outros cantos fazendo, mesmo que por uns dias, o seu abrigo.
Depois de mais um dia de lida, Sô Manoel, ao raiar do sol chega em casa cansado, faminto e ao pisar o terreirão, que cercava sua casa, percebe vindo ao seu encontro os seus entes queridos e logo atrás Bili, o cachorro da família, abanando sua cauda. Cena que se tornou comum ao longo dos anos.
Mas naquele dia uma surpresa inesperada estava aguardando o patriarca da família. Dona Sebastiana com aquele olhar de felicidade e espanto anunciou baixinho, meio que ao pé do ouvido a boa nova, que estava gestando mais um filho do casal.
Meio que paralisado, atônito, Sô Manoel sentou-se no banco que estava próximo ao fogão de lenha, olhou para todas as direções, visualizou as panelas, algumas das crianças que ainda o rodeavam, abaixou a cabeça e pela primeira vez deixou transparecer em forma de lágrimas a sua emoção. Levantou-se, caminhou até a janela e olhou para o seu quintal e viu lá no fundo a porteira que delimitava o seu rancho. Chamou Dona Sebastiana que até então estava quieta e ansiosa pela reação do esposo, ao aproximar da janela, sentiu-se tocada e ouviu as primeiras palavras após o seu anúncio, saindo da boca do seu companheiro.
Você está vendo aquela porteira? Daqui alguns meses terei que ter mais força, pois ao passar por ela, mais uma criança estará correndo em direção aos meus braços.
Naquele instante o cansaço e a fome pareciam ter ido embora. A emoção era tão intensa que fazia brotar a sensação indizível do amor conjugal. Parecia que aquela criança seria o primeiro filho do casal.
Criar treze filhos não foi uma tarefa fácil, as horas de trabalho acompanhavam os raios de sol. Mas do fogão a lenha nunca faltou o necessário para que todos crescessem e tivessem força para buscarem seus caminhos.
Não foi fácil também educá-los. Treze filhos representam gerações diferentes, enquanto uns são jovens, adolescentes, outros ainda são crianças. Mas o casal, humilde e firmemente conseguiu conduzir cada um dos seus filhos pelo caminho que eles acreditavam ser o humanamente correto; formando cada um deles com valores e princípios.
Aos poucos, seguindo o ritmo natural da vida, um a um dos seus entes queridos e amados foi saindo de casa. Cada um com o seu jeito e personalidade foi dando cor à sua própria vida. Mas todos, sem exceção, levaram enraizados no seu ser os ensinamentos dos seus pais. Uns se tornaram profissionais liberais, outros funcionários públicos, dois reconhecidos empresários… Mas todos eram reconhecidos como os filhos do Sô Manoel e Dona Sebastiana.
Passadas algumas décadas, em um fim de tarde de verão, sentados no alpendre da sede do rancho, aquele casal com os sinais da idade, vê passando pela antiga porteira um carro. Era um dos seus filhos trazendo com ele a sua família. Os netos ao avistarem os seus avós, saíram correndo e pularam no colo deles. Quase os derrubaram, com tantos beijos… Os dentes escancarados demonstravam a alegria do encontro.
Um dos netos, o mais velho dos três, carinhosamente pediu à vovó que preparasse aquele biscoitinho delicioso que só a vovó sabia fazer. Depois do pedido ela calmamente levantou-se e foi atender ao capricho dos netos, que a seguiram sorridentes.
Restaram os dois na varanda, pai e filho, e quebrando o silêncio o filho disse ao pai: Papai hoje olhando para os meus filhos eu entendo mais do nunca o valor daquele ensinamento simples que o senhor sempre nos ensinou, o valor do “fio de bigode”. O silêncio por um instante voltou, o suficiente para que mais uma vez escorresse pelo rosto do Sô Manoel mais uma lágrima. A lágrima do dever cumprido.
Walber Gonçalves de Souza é professor.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Artigo no Diário de Caratinga

PROCURA-SE PROFESSOR
Artigo publicado hoje (25/08) no Jornal Diario de Caratinga.

Que a educação é a mola mestra para o desenvolvimento de qualquer país não é novidade para ninguém. Dela emerge o desenvolvimento tecnológico, científico, social, cultural… humano. Mas para que o processo de educação seja eficaz faz-se necessário a existência de certos princípios básicos, que vão desde a logística operacional; portanto, escolas, materiais didáticos, transporte escolar… ao agente executor, que está na linha de frente de qualquer escola, que é o professor.
Como professor, sou suspeito para afirmar, mas a valorização do profissional do magistério é um dos fatores de desenvolvimento de diversos países. Países que, ao apostar na educação, valoriza o papel do professor, observa-se que o índice de desenvolvimento humano que mede a qualidade de vida da população, tende a ser alto. E notamos também um cenário proporcionalmente diverso, quando verificamos a falta de mérito concedido aos professores. Fica claro, portanto, que o desenvolvimento de qualquer nação passa pelas salas de aula espalhadas pelos mais diversos locais do seu território.
Agora, ao que parece, no Brasil ainda estamos muito longe de acreditar que o professor é este agente possuidor de grande responsabilidade na transformação social. Mas como podemos perceber isto? A resposta é muito simples: “ninguém” quer ser professor. A carência de professores é uma realidade. Verifica-se que em algumas áreas acentua-se de forma mais crítica, mas de modo geral ser professor está se tornando uma carreira em extinção.
Nos diversos centros de formação acadêmica, faculdades e universidades, ficam evidentes que os cursos de formação de professores estão praticamente vazios, quase sem alunos. Para alguns cursos nem procura há tamanho o desinteresse pela carreira.
De uns anos para cá, todo ano a história se repete, quando as escolas e cursinhos procuram por professores para o preenchimento de alguma vaga é uma dificuldade para encontrar alguém. Abrem-se editais e em muitos casos não aparecem candidatos nem para concorrer ao cargo. Substituição para poucos dias então, nem se fala, ai é que as coisas se complicam mesmo.
Dentro deste cenário, que causas poderiam ser apontadas como motivadoras desta desoladora realidade? Dentre várias analisarei três.
Primeiro, tentaram de toda forma acabar com a nossa identidade. Esqueceram que a exemplo de outras profissões, os professores também devem evoluir, aprimorar-se, desenvolverem intelectualmente. Tentaram e continuam tentando fazer os professores acreditarem que eles são tudo menos professores. Tanto que a palavra professor ganhou um peso negativo, arcaico, com ares de instituição falida. A nova nomenclatura a ser utilizada é educadores. Era preciso ser educador e não mais professor. Esqueceram que um dos papeis de um verdadeiro professor é também colaborar com o processo de educar. Pois educadores todos nós somos, ou deveríamos ser, independente de qual profissão exercemos. Assim nasce um sentimento de vergonha, de desvalorização, de descaso. Quiseram transformar o ser professor em algo fora de moda… algo feio.
Segundo, por mais que gritem e espalhem, via propagandas governamentais, que os professores são valorizados economicamente, isto não condiz com a realidade. Alguns poucos professores, por trabalharem em escolas particulares e/ou federais, que também já não renumeram como antes, ganham um pouco mais que a média nacional. Mas a grande maioria dos professores que estão lotados nos quadros das redes municipais ganham mal, são pessimamente remunerados.
Para confirmar tal realidade cito dois fragmentos, um do Prof. Eugênio Maria Gomes, que diz: “Eu quero acreditar que, um dia, o nosso professor será valorizado e respeitado pelos governos e pela sociedade, que serão bem remunerados e que não precisarão fazer “bicos” para complementação da renda, despendendo tempo com atividades outras que não seja a Educação.” E o outro do economista Henrique Fonseca, que afirmou: “Isto ocorre, por exemplo, com muitos profissionais da Educação e Saúde, que mesmo com cursos de pós-graduação, recebem baixos salários e ocupam vagas abaixo de suas expectativas”.
Terceiro; não há uma política pública eficaz de valorização do profissional da educação. No máximo há falácias, discursos hipócritas… tentativas enganosas de ludibriar e reviver eternas esperanças que nunca se concretizam.
Enfim… Procura-se professor!!! Quem se habilita?
Walber Gonçalves de Souza é PROFESSOR.

Publicação CORREIO DE UBERLÂNDIA

Artigo publicado ontem (24/08) no Jornal CORREIO DE UBERLÂNDIA.


quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Participação no Jornal Correio de Uberlândia

Artigo publicado no Jornal CORREIO DE UBERLÂNDIA no dia 19/08.



Artigo do Jornal Diário de Caratinga

O GRITO DO SEM VOZ

O Brasil é uma terra em que se plantando tudo dá. Não necessariamente com estas palavras, mas com este sentido foi que Pero Vaz de Caminha relatou no seu diário de bordo ao descrever o paraíso terrestre que ele acabava de se deparar, como maneira de apresentar para a coroa portuguesa as terras recém-conquistadas.
Deste fato, marcante para a nossa história, até este momento em que este texto está sendo lido uma triste realidade nos acompanha, dia a após dia estamos sendo dilapidados das nossas riquezas materiais e imateriais.
Do pau-brasil ao petróleo… nada vem sendo transformado, de forma contundente e sistemática para a melhoria de vida do povo brasileiro. Observamos em determinados momentos, ao longo dos séculos, fenômenos econômicos que nos dão a sensação que as coisas estão melhorando… tende-se a acreditar que agora vai, o Brasil entrou nos trilhos… mas como um relâmpago a claridade dura pouco, o que fica mesmo, sem nenhum trocadilho, é a falta de luz.
Riquezas são geradas a todo o momento, recursos naturais sendo extraídos como se nunca tivessem fim. Mas poucos são os grupos, as pessoas que se beneficiam dela, um expressivo número de brasileiros vivem em condições tão subumanas que o internacionalmente conhecido o cantor Caetano Veloso, em uma das letras das suas músicas, chegou um dia a fazer menção que o Haiti é aqui.
Alheios e excluídos vivemos ao som dos eternos slogans que fazem acreditarmos que as coisas podem ser diferentes. Um dia aparece o “pai dos pobres”, transforma tudo em ditadura velada, sarcástica, em seguida nos induzem a acreditar que em cinco anos teremos a sensação que avançamos cinquenta, noutro como um super herói que aparece de forma irradiante faz estrondar sua profecia de meliante sou o “caça marajás”, mas que se torna um deles, se é que já não era antes. Anos passam… surgem “o país sem miséria” e o “Brasil: país de todos”, de todos quem cara-pálida? De todos aqueles que carregam uma estrela na testa, os aprendizes do sistema… e o por fim a “pátria educadora” que parece ter com objetivo central a “formatação” de analfabetos funcionais. É duro, cruel, mas o retrato sinistro e literário da realidade da nação brasileira.
Feito um toque de mágica, um dia olharam para nós e de forma prepotente ousaram a afirmar que não tínhamos alma, éramos seres desalmados, portanto, bichos. Pior não foi terem pensado assim, mas agirem conforme este pensamento. Fomos tratados como animais. Quando tudo parecia resolvido, as senzalas foram construídas, os troncos empinados, os chicotes artesanalmente produzidos e com eles os gritos, choros, lágrimas de dor e tristeza.
O processo de formação das cidades, que engendram a teia populacional do nosso país, representa de forma perfeita como tão grande é a nossa desigualdade. Em qualquer lugar que nos encontremos, do Oiapoque ao Chuí, observaremos um nicho de “desenvolvimento” envolto por um cinturão de pobreza, injustiça, mazelas… Nossas cidades, e tudo que acontece nelas, representam fielmente o que somos, como pensamos e agimos.
Existe no Brasil uma mordaça que impede que o grito dos sem voz, feito em desabafo ou protesto, ecoe estrondosamente em todas as direções. Os desalmados gritaram em vão e encontraram na extinção o seu fim, os chicoteados desfiguram-se pelos mais diversos tipos dos sincretismos e metamorfoses sociais, os citadinos deslumbrados pelos deuses da contemporaneidade, parecem nem querer gritar mais, e quando ocasionalmente isto acontece é tratado como um ninguém. Pois tentam vender a ideia que o grito não vem dos que berram.
Nossa história é longa, muitas seriam as situações a serem descritas que mostram que além da riqueza natural, material, tentaram e tentam dia a apos dia sugar de nós, brasileiros, nossa dignidade, nossa esperança, nossa identidade, nossa alma… tudo que faz parte da riqueza imaterial de um povo.
Mas o gostoso da história é perceber que tantos outros povos conseguiram destruir as mordaças que os asfixiavam… e gritaram, gritaram, gritaram tão alto que até quem gritou passou a acreditar nas suas verbalizações transformando-as em atitudes. Que este dia não demore a chegar por aqui!
Walber Gonçalves de Souza é professor. 

(Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga 18/08)

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

O CICLO VICIOSO DA MISÉRIA ELEITORAL

Aquela turma se reunia com frequência. Início da década de 90 do milênio passado, eram jovens e adolescentes discutindo a realidade da nação, os rumos do Brasil. Com a distância do tempo, vejo como aquelas conversas eram sonhadoras, politicamente românticas e, provavelmente, inaplicáveis. Aquelas utopias eram o combustível na luta por dias melhores, da perseverança da convicção que é possível construir um país com mais justiça, com dignidade.
O tempo foi passando, a maturidade e realidade fazendo-se cada vez mais presentes e enraizando-se no ser. Mostrando a complexidade de se viver em comunidade e que nem sempre o que tem que ser feito é feito. Acima de tudo há sempre o interesse de alguns prevalecendo, fortificando o cerne dos nossos problemas, desenvolvendo o individualismo doentio.
Aos poucos, cada um foi trilhando em outras direções, consequência da própria vida, proporcionando o desmembramento daquela coletividade. Neste período aconteceu um fato inusitado: um dos companheiros do grupo, o mais velho da turma, aquele que acabava dando a pitada adulta de maturidade nos diálogos, viveu um momento pessoal de profunda angústia. Um dos seus entes queridos passou a conviver com uma doença séria, de extrema preocupação. E como pai ele se pôs a encontrar uma solução. Procurou um hospital aqui, outro ali e nada. Um médico aqui outro ali e nada. Procurou os companheiros que ele sempre defendeu e nada. E tomado pelo desespero encontrou nas mãos daqueles que ele sempre criticou a ajuda que ele mais precisava. O final desta particular história é feliz, pois a então menina encontrou novamente a sua saúde; mas coletivamente um desastre. Depois de muito tempo refletindo sobre este acontecimento é que eu passei a atender o quão cruel é o ciclo vicioso da miséria.
Vivemos em um país onde praticamente tudo que é público funciona muito pouco ou quase nada. Com raríssimas exceções observamos que tudo é exercido de modo precário, sem a qualidade propagandeada. Criando assim um ciclo interminável de benesses politiqueiras.
Imaginemos uma pessoa, simplesmente considerada um nada, excluída praticamente de todos os seus direitos, vivendo de uma maneira que beira a miséria, envolto pela pobreza financeira, cultural… desprovida de uma identidade social. Tudo que ela mais quer e precisa é ser vista, enxergada. Pois o que menos falta a ela são problemas sedentos de soluções; o prato cheio para o “pilantra” travestido de político.
Voltando aos sonhos da década de 90, se o Estado, verdadeiramente atuasse de acordo com suas prerrogativas. Muito do que vivenciamos na nossa história política seria totalmente diferente. Vários casos de extrema indignação não existiram. As características da vida pública mostrar-se-iam totalmente adversas das atuais.
Quando uma pessoa com alguma enfermidade procura os locais apropriados para tratá-la e não consegue atendimento e voltando para casa, busca por ajuda e a encontra justamente nas mãos dos “políticos” pilantras, só podemos chegar a uma conclusão: não falta vaga para tratamento, não falta medicamento, pois com a mencionada ajuda se consegue. Aí o ciclo da miséria humana se fecha. Criando uma roda viva de corrupção, onde o que está em jogo não é um voto, mas sim uma das coisas mais importantes na vida de uma pessoa, sua saúde.
Por um lado, o renegado cidadão não vê outra saída, ou pede e aceita a ajuda ou correrá o risco de morrer. Já por outro lado, o maior beneficiado do esquema, que é o político vigarista, vira o herói da humanidade; engessando, criando limbo, fortificando a cada dia esta relação desumana e cruel com ares de amor ao próximo.
Este exemplo vale para todas as outras situações: conquistar uma vaga em creche e escola, ser cadastrado nos diversos programas governamentais de políticas públicas, transferências e permutas de local de trabalho… Enfim, em todos os lugares em que o direito é transformado em moeda de troca.
Como é sempre mais fácil culpar aqueles que vivem à margem da vida… Vamos cultuando e aceitando passivamente este modelo cruel, injusto e desumano de viver.
Walber Gonçalves de Souza é professor.
(Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga 11/08)

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Artigo no Estado de Minas


Artigo no Diário de Caratinga

A celeuma em que se transformou o Cine Brasil
Prof. Walber Gonçalves de Souza


                Podemos afirmar, com toda a certeza do mundo, que Caratinga não pode ser considerada uma cidade histórica, a exemplo das famosas cidades de Ouro Preto, Mariana, Diamantina e outras mais, que até viraram Patrimônio Histórico Mundial.
                Com a mesma convicção, podemos continuar afirmando que, mesmo não sendo uma cidade histórica, o município de Caratinga tem a sua história. Que merece ser descrita, analisada, estudada e preservada. Por um motivo muito simples e plausível, só assim as futuras gerações poderão ter acesso ao seu passado, possibilitando o crescimento intelectual e cultural do indivíduo.
                Já diria aquela velha máxima, "um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado". E não existe outro caminho, para se conhecer a história é preciso preservá-la. Caso o contrário ficaremos nesta roda viva, repetindo sempre as mesmas coisas, achando que estamos inovando, sendo diferentes.
                Na terra das palmeiras, recentemente vivenciamos esta discussão, em torno da demolição ou não da antiga construção que funcionava, em tempos idos, o Cine Brasil.  Como não poderia deixar de ser surgiram opiniões distintas, cada uma delas acompanhada por suas justificativas, recheadas de argumentos. Como é de conhecimento público, toda esta celeuma, até hoje não chegou a um ponto final. Liminares jurídicas surgem a todo momento defendendo as opiniões divergentes.
                Como munícipe, envolto no meio de tudo isto, acredito que há alguns pontos que merecem nossa atenção.
                O Cine Brasil foi uma dos maiores salas de projeção de Minas Gerais. Nas telas do referido cinema, intermináveis clássicos da cinematografia brasileira e mundial foram apreciadas. Imagino ser incalculável o total de pessoas que acomodaram-se nas cadeiras deste cinema, para vivenciar um momento de êxtase cultural. Isto é fato! Depois do seu primeiro fechamento, e com a chegada cada vez mais frequente nos lares, das invenções tecnológicas, por várias vezes o Cine Brasil foi reinaugurado. E infelizmente o resultado foi sempre o mesmo, por falta de público deixava de funcionar. Vindo de um anos para cá entrar num processo de abandono. E este processo de abandono foi acarretando outras situações que poderiam causar algum dano de cunho social.
                A notícia da demolição criou um frisson na cidade. Principalmente em relação às pessoas que eram contra o procedimento de colocar abaixo o cinema. Caso o processo de demolição não houvesse iniciado, com certeza a construção que abriga o falido Cine Brasil estaria lá, da mesma forma, abandonada, entregue às intempéries, e aos pouquinhos sendo destruída, silenciosamente despedaçada... a cada dia sendo fragmentada pelas mãos da imortalidade do tempo.
                Mas como já disse anteriormente, um povo que não conhece a sua história, está fadado a cometer os mesmo erros. E justamente por causa disto que fiquei imaginado que toda esta celeuma, envolvendo o Cine Brasil, poderia ter tido outro desfecho. A história poderia estar sendo contada de outra forma.
                Confesso que até hoje não entendi o porque de toda esta problemática, visualizava um cenário totalmente diferente. A exemplo do que acontece em outras cidades, mesmo sendo cidades com características e reconhecidas como históricas, ou mesmo com tantas outras construções de valor histórico. Os diversos interesses, que envolvem a questão em foco, poderiam ter chegado a um denominador comum.
                O prédio do Cine Brasil, principalmente com sua fachada imponente, poderia ter sido mantido e o seu interior ter sido adaptado para receber um empreendimento comercial. Assim, manteríamos um pouco da nossa memória, presente na Praça Getúlio Vargas, preservaríamos ícones da nossa história e ao mesmo tempo estaríamos propiciando mais uma possibilidade de desenvolvimento para a cidade. A empresa que viesse a ocupar o espaço, poderia usar, a preservação do lugar, como uma peça de marketing. Acredito que seria um final mais agradável para todos.
                Mas como não foi isto que aconteceu e pelo visto há descontentes para todos os lados, vamos aguardar cenas do próximo capítulo. Que independente de como será escrito nunca mais trará aquilo que era o mais importante nesta questão o Cine Brasil.

Walber Gonçalves de Souza é professor.
(Artigo publicado no Diário de Caratinga no dia 04/08)

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Jornal Sem Fronteiras


"Lembranças de uma rua de terra".
Artigo publicado no Jornal Sem Fronteiras, do Rio de Janeiro.
Link: http://www.redesemfronteiras.com.br/noticia_ver.php?id=865

terça-feira, 28 de julho de 2015

ZELADORES DA ALEGRIA

Como diria alguns amigos meus, em tom de brincadeira, mas ao mesmo tempo querendo dar uma alfinetada, a única vantagem de ser professor é que se têm duas férias por ano. O pior é que eles não estão muito enganados! Mas vivenciando então, desta minha vantagem, o recesso deste mês de julho, aproveito para dar uma caminhada descompromissada pelas ruas de Caratinga, assim vou observando o ritmo das coisas, encontrando alguns amigos e colocando a prosa em dia.

Entre os vários encontros, um deles aconteceu próximo ao viaduto que liga o centro ao Bairro Santa Zita. Por coincidência, justamente no momento em que trocava alguns minutos de conversa com um amigo, quase presenciamos mais um atropelamento, motivada pela travessia dos transeuntes pela BR-116, a popular Rio-Bahia. Nossos olhares foram sugados pelas ondas da buzina que de alguma forma conseguiu evitar a colisão.
Que esta questão é crônica em Caratinga, todos nós já sabemos, constantemente este assunto está em voga e em muitos casos com final triste, pois vários óbitos são frutos deste problema. O que precisa ser feito, também já é do conhecimento de todos, construir algumas passarelas no percurso urbano da rodovia. Esta medida faria os índices de acidentes diminuírem consideravelmente.
Mas em meio a esta confusão, alguém poderia levantar uma questão. Em outros trechos da cidade, acidente deste tipo é mais comum acontecer, justamente pelo fato de não existir nenhum meio para evitá-lo, a não ser a atenção no processo de travessia. Agora, próximo ao viaduto não deveria acontecer, justamente por causa do acesso que existe no lugar. E realmente é um ponto a ser discutido, pois tem razão de ser.
Dizem que o hábito de fumar cachimbo deixa a boca torta. Os moradores do Bairro Santa Zita, com raríssimas exceções, acostumaram a atravessar a rodovia, caminhando pelas pistas, colocando suas próprias vidas em perigo. A justificativa para tal procedimento seria o caminho mais curto e o tempo gasto, acredita-se que se ganha tempo.
Mas algo precisa ser feito. Algumas medidas precisam ser tomadas. Esta situação não pode continuar da mesma forma. A primeira delas é tornar o acesso uma realidade. As pessoas precisam enxergar e perceber que ao usar este meio, estará dando segurança para si próprio.
E o que pode ser feito para aflorar na população o gosto por esta “nova” forma de travessia? Primeiramente, acredito que deveria ser reestruturado o local, deixá-lo mais acessível. Como? O ambiente deveria mais iluminado, provoca uma sensação de mais segurança, pois durante a noite, a penumbra do local o leva a ser usado para outros fins, espantando as pessoas de trafegar por lá; implantar corrimão, colaboraria com as pessoas que possuem alguma necessidade especial, bem como os idosos que necessitam de um meio de apoio… enfim, pensar uma forma de deixar o local atraente, bonito, aconchegante, chamativo.
Mas acredito, que somente isto não será o suficiente. Mesmo estando tudo atrativamente perfeito, muitos continuaram atravessando pela pista. É preciso também incentivar a mudança de hábito das pessoas que passam pelo local. E ai talvez esteja a missão mais difícil. Neste sentido, é que se faz necessário o papel dos “Zeladores da Alegria”. A ideia não é original, mas se encaixa perfeitamente na questão em pauta.
Nossa cidade conta com um bom número de pessoas que dedicam suas vidas em projetos de artes cênicas, muitos destes projetos são de cunho social e educativo. Se não estou enganando, em algumas igrejas evangélicas, estes grupos são muito presentes.
Os Zeladores da Alegria seriam, portanto, grupos, devidamente credenciados e apoiados, pelos órgãos competentes, para colaborar com este processo de criação de uma nova percepção de uso da cidade. Penso, que até financeiramente seria mais viável. Prevenir é sempre mais barato e eficaz. Escolher-se-ia os locais mais críticos, de maior demanda, os grupos criariam as formas de intervenção, provavelmente, com um caráter bem lúdico e chamativo.
Muitos pontos da cidade poderiam ganhar esta ajuda. Em locais de faixa de pedestre, carros querendo parar em locais impróprios, ciclistas trafegando em locais impróprios, como calçadas, cidadãos andando pelas ruas… Enfim, situações que não faltam.
Terminada esta empreitada, outras campanhas educativas, com certeza aparecerão. Assim, estaríamos construindo uma sociedade melhor, uma cidade melhor para se viver, onde teremos menos lágrimas e mais sorrisos.

Walber Gonçalves de Souza é professor.
(Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga - 28/07)

domingo, 26 de julho de 2015

Filosofando em Gotas XI

ESPERAR

Esperar... palavra estranha em tempos de correria.

Esperar... palavra estranha em tempos de vida agitada.

Esperar... palavra estranha em tempos de sensação de falta de tempo.

Esperar... palavra estranha em tempos de falta de paciência.

Esperar... palavra estranha em tempos de se querer tudo para ontem.

Esperar... palavra estranha em tempos de uma vida cada vez mais veloz.

Esperar... palavra estranha em tempos de alto tecnologia.

Esperar... palavra estranha em tempos de desejo imediato.

Esperar... esperar... esperar...

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Reforma Humana

Reforma. Ultimamente esta é uma das palavras mais pronunciadas nos meios de comunicação do nosso país. Vira e mexe ela está sendo balbuciada por alguém. Travam intermináveis discussões a respeito da Reforma Política, da Reforma Previdenciária, da Reforma Econômica, da Reforma do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), da Reforma Trabalhista, da Reforma do Judiciário… são tantas reformas que levam a crer que está tudo completamente estragado, paralisado… precisando, portanto, ser refeito.
Mas em meio a toda esta discussão parece que o pivô central de todas as reformas, que é o próprio ser humano, está esquivando-se das suas responsabilidades e como sempre delegando ao “sistema” (que precisa substituído e não reformado) a totalidade da culpa dos nossos fracassos nacionais. A principal reforma que precisamos passar é a Reforma Humana, estamos precisando a aprender a ser gente.
Voltando um pouquinho na história da humanidade, veremos no passado semelhanças, alguns exemplos, das mesmas situações, observando a essência das coisas, que acontecem até hoje e que foi mencionado no parágrafo anterior.
Um dos maiores impérios da humanidade, o Império Romano, é caracterizado por uma atitude muito simples que colocaram em prática, dividiram a população em dois grupos: existia o povo romano, que merecia todas as glórias, e o povo bárbaro, que eram todos aqueles que não eram romanos, independente de onde eram e de como viviam, estes mereciam ser perseguidos, se fosse preciso escravizados… eram vistos como segunda categoria de gente.
Uma das maiores religiões ocidentais, infelizmente, cresceu fazendo a mesma coisa, dividindo as pessoas em dois grupos: católicos e não católicos. Os primeiros dignos de todas as benesses divinas e os segundos, pessoas consideradas desalmadas, ditas como bruxas, merecedoras das chamas da inquisição e de todos os estragos provocados pelas Cruzadas. Nos dias atuais estamos presenciando o movimento ao contrário, os que foram perseguidos hoje perseguem. A semente do encalço parece ter germinado e os frutos estão aí, vistos todos os dias nos noticiários.
Com o processo de expansão dos povos europeus, a partir das grandes navegações, não é que a história se repete. Os europeus consideravam-se civilizados, avançados… e todos os povos que foram “conquistados”, “descobertos”, foram considerados por eles “raças inferiores”. E a justificativa: vivam de uma forma diferente, eram seres sem alma… Houve um período que os nativos, das diversas regiões do planeta, foram vistos e tratados como animais.
Terceiro milênio, a dicotomia continua. Separamos as pessoas em indivíduos da esquerda e da direita; sujeitos homoafetivos e heterossexuais; católicos e protestantes; islâmicos e cristãos; rurais e urbanos; intelectuais e analfabetos; ricos e pobres; negros e brancos… e o que é mais importante vai ficando de lado: a “Reforma Humana”.
Ao analisar o passado verificamos que ao defender “bandeiras”, modelos, milhares de pessoas foram exterminadas, excluídas. Independente se estas pessoas eram boas ou ruins, honestas ou desonestas, justas ou injustas… o jeito dominador de ser impera(va) e ponto final.
Mas afinal de contas o que seria a reforma humana? Significa começar a enxergar os valores que realmente interessa. E os valores são, honestidade, sensatez, hombridade, zelo, caráter, sensibilidade… E isto não tem relativismo. Significa valorizar o mérito; significa valorizar a pessoa além das suas crenças, credos, gostos e jeitos; significa perceber o outro como gente; significa ter atitude de gente; significa acreditar que ainda é possível construir uma sociedade, mais justa e fraterna.
O que adianta uma pessoa ser branca ou negra, católica ou protestante, homo ou hetero, letrada ou analfabeta, ser filiada neste ou naquele partido… se suas atitudes são preconceituosas, discriminatórias, malfazejas, injustas, corruptas… desumanas. Acabará colaborando com todas as mazelas da sociedade.
Imaginemos agora o contrário, independente se a pessoa for branca ou negra, católica ou protestante, homo ou hetero, letrada ou analfabeta, ser filiada neste ou naquele partido… se ela pratica a caridade, a justiça, cuida do bem comum, valoriza as pessoas, cultiva os valores humanos… não seria maravilhoso! Estará colaborando, com toda a certeza, para uma sociedade equilibrada, justa… digna da vida humana.
Todas as outras reformas só darão certo quando o ser humano der certo. Quando conseguir sair do casulo, da máscara… como diria Platão, da caverna. Quando permitir-se atravessar os ritos da metamorfose ambulante. Quando deixar de a qualquer preço, defender bandeiras, estereótipos… convicções que desumanizam. Caso contrário, ficaremos eternamente secando gelo e nunca veremos nossos intermináveis problemas começarem a ser resolvidos. Já passou da hora de valorizarmos o que realmente interessa!
Walber Gonçalves de Souza
(Artigo publicado no jornal Diário de Caratinga, no dia 21/07)

terça-feira, 14 de julho de 2015

Lembranças de uma rua de terra

Madrugada de uma noite fria de inverno, mesmo debaixo do cobertor a sensação térmica parecia demonstrar que aquela noite seria a mais fria do ano. De súbito a insônia supera o sono e no silêncio notívago a memória começa trazer à tona lembranças dos tempos imortalizados pela história.
Do hipotálamo surgem as imagens daquele instante, em que pela primeira vez os pés tocavam o chão daquela rua. Daquela via que seria o local da sua morada por muitos anos.
Das reminiscências jorram lembranças dos tempos em que aquela rua de terra, sem nenhuma pavimentação, abrigava todas as tardes crianças brincando pelas ruas, sendo que muitas vezes acabavam sendo confundidas com a própria terra, por estarem tão envoltas por uma camada de poeira. No corre-corre, próprio das crianças, observava-se bolas indo em várias direções, bicicletas passando, tombos acontecendo, jogos de biroscas, a famosa “pelada” (futebol)… às vezes alguém gritava por um joelho esfolado, uma unha quebrada, um dedo torcido… mas nada que abalasse e fizesse com que no cair da tarde aquelas cenas se repetissem.
Na rotina destas tardes diárias, a vida era compartilhada com galinhas, pintinhos, às vezes patos e gansos e não tão infrequentes porcos e cabritos. Não tão diferente das milhares de ruas de terra espalhadas pelos rincões desta nação.
As casas simples, sem luxo, caracterizavam os adornos da rua… com janelas e portas de madeira, telhas cumbuca ou amianto, geralmente tingidas de cal… boa parte seguia o mesmo padrão estrutural.
Eram raríssimas às vezes que se ouviam reclamações de algo, que aos olhos daquela época, eram vistos como impróprios para a vivência coletiva. Assim, percebiam-se pouquíssimos muros entre as casas, portão era coisa notada aqui e acolá e grades inexistentes. Campainha? Era desnecessária, pois o grito anunciava a chegada da pessoa, que praticamente já se encontrava perto da porta.
Mas a vida segue o seu curso, e como diria Charles Darwin, as coisas evoluem, tornando as mudanças inevitáveis. Em um dia de sol a rua de terra foi ganhando nos seus extremos uma fina camada de concreto, que tinha por objetivo delimitar sua extensão e cumprimento, e logo em seguida, aos poucos, foi sendo tampada, vagarosamente, por uma camada de pedras enfileiradas, irregulares e semi-pontiagudas. Sem que notassem não se via mais terra, a rua estava calçada. Porém, havia uma certeza, nos tempos de chuva o barro acabara; nos tempos de seca, a poeira diminuirá. A profecia se concretizou!
A partir de então, as mudanças na rua e seu entorno tornaram-se cada vez mais frequentes. As casas foram ganhando novos formatos e cores, os muros e grades começaram a fazer parte do cenário… as bolas, o  futebol, as biroscas… sumiram.
O pregresso chegou em definitivo, quando a era da pedra foi substituída pela era do petróleo. A rua que um dia foi de terra, tornou-se de pedra, passou a ser coberta por uma fina camada de asfalto. O logradouro estava no ápice da evolução!
Com o asfalto a rua nunca mais foi a mesma, passou a ganhar corpo de modernidade, as casas são mais vistosas, pintadas com cores modernas, enfeitadas, praticamente em todas há muros, portões, cercas, grades… e é claro a companhia!  Na rua, em meio aos transeuntes, os “aviões” (que parecem mais jatos) andam para lá e para cá, motos, carros e bicicletas insistem em buscar o limite máximo da velocidade…
Entre bocejos e cochiladas brota uma dúvida: e a maioria dos moradores, das crianças… onde estão? A melhor resposta encontrada, em meio a penumbra mental, resume-se do seguinte jeito: escondidas dentro das prisões domiciliares em que aquelas casas simples foram se transformando.
Sem que percebesse o sono encarregou-se de sugar os seus pensamentos. Naquele estado inerte, começa a sonhar com aquela rua de terra. No seu momento de sonolência a rua passa pelas mesmas transformações verificadas pelos seus lúcidos pensamentos… a única diferença é que no sonho as pessoas também evoluíram e não transformaram a rua de terra numa selva de pedra.
Walber Gonçalves de Souza (Crônica publicada no Jornal Diário de Caratinga - 14/07)

terça-feira, 7 de julho de 2015

A POLÊMICA DO AUMENTO SALARIAL

Iniciarei este artigo comentando sobre o cenário salarial da nossa Caratinga, de acordo com os dados fornecidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no último censo, ocorrido em 2010.
Observando os dados fornecidos pelo órgão, que está disponível para consultas públicas, podemos perceber que 31% da população, economicamente ativa, vivem sem rendimentos fixos, vivem de trabalhos temporários, a exemplo do que acontece na nossa região no período da colheita de café; 39% da população recebem até um salário mínimo; 26% recebem de 2 a 5 salários mensais; 3% desfrutam de rendimentos entre 6 à 10 salários; e uma pequena parcela, cerca de 1%, recebe acima de 11 salários mínimos por mês. Na época, em 2010, o salário era de 510 reais.
Passados, praticamente cinco anos, pode ser que este cenário tenha se alterado um pouco, uma nova pesquisa pode apontar algumas variações, mas acredito que não serão mudanças radicais. Para constar, houve o aumento do salário mínimo que hoje é de 788 reais.
Que todo trabalhador merece receber pelo seu trabalho isto é inegável. Da mesma forma que é inegável também que vivemos em uma era de discrepância salarial. Nem sempre ganhamos pelo que produzimos, merecemos ou até mesmo necessitamos. E isto faz parte da estrutura do sistema de produção das sociedades contemporâneas, principalmente as nações consideradas em processo de desenvolvimento, que ainda não conseguiram reverter o quadro de desequilíbrio na geração e distribuição de renda.
Mas em Caratinga, pelos dados oficiais, cerca de 99% da população, ganha no máximo 10 salários mínimos, portanto, um valor aproximado de 7.880,00 reais (bruto), mas desta fatia um percentual de 80% chega a receber no máximo um salário mínimo. Somente com estes valores já é possível desenhar o nosso quadro social, perceber como é a distribuição de renda e por consequência a qualidade de vida dos munícipes.
Nos últimos dias, estamos acompanhando uma reflexão sobre o aumento salarial dos vereadores do nosso município. Uma das justificativas para o aumento está ligada às perdas provocadas pela inflação. Não pretendo aqui entrar no mérito de cada um dos vereadores, e apontar (e quem sou eu para fazê-lo) quem mereceria ou não o referido aumento. Pois sei que não é justo “julgar” todos eles da mesma forma. Mas gostaria de propor as seguintes reflexões sobre a questão em pauta:
1º) Em meio ao momento atual em que estamos vivendo, onde todos, de alguma forma, estamos tendo que fazer algum sacrifício, seria a hora de propor um aumento de salário?
2º) Nos últimos anos, os trabalhadores dos demais setores tiveram seus aumentos baseados nas perdas provocados pela inflação?
3º) Nossos representantes, já ocupam a seleta fatia daqueles que ganham acima de 11 salários mínimos mensais, portanto, cerca de 1% da população assalariada. Se eles sentem a defasagem do salário, imagem os outros 80%…
4º) Quero deixar aqui uma proposta para os nossos legisladores: pensem, discutam, criem um padrão a ser seguido para o aumento salarial de todos os servidores do município, lotados em todas as esferas do poder público. Assim, o aumento dado periodicamente será o mesmo para todos. Estabelecendo uma forma menos injusta de valorização salarial.
5º) Se foi de propósito, não posso afirmar, mas deu a entender que, este aumento, foi algo na surdina, por debaixo dos panos, no apagar das luzes… em meio a um feriado municipal e às vésperas do recesso. Qual o motivo para tal atitude? Ou isto não é coisa pública?
Enfim, discutir salário é sempre algo complexo. Como diria uma amiga, salário de político parece algo maldito (deve pensar assim pela forma como a maioria deles agem). Talvez este seja o motivo de sempre se querer mais e os valores estampados nos holerites nunca serem o suficiente para os seus intermináveis compromissos com “seus eleitores”, que acabam de alguma forma, colaborando também, com este cenário desolador. Pelo menos é o que parece!
Mas que está faltando, nos nossos gestores públicos, um pouquinho de espírito público, de sensibilidade, de coerência com o momento atual do município, de grandeza humana… isto está, e como está!
Walber Gonçalves de Souza é professor
(Artigo publicado no Diário de Caratinga na edição do dia 07 de julho de 2015.)