quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Artigo no Jornal Diário de Caratinga

A cartografia na história da humanidade

Um dos fatores que impulsionam a evolução humana é a necessidade de apresentar respostas para intermináveis questionamentos. Entre estas inquietudes observa-se o querer decifrar o próprio habitat humano. Desvendar, entender e descrever a gaia tornou-se uma necessidade humana, tanto em âmbitos intelectuais quando em termos de sobrevivência.
Desde os primórdios pode-se perceber as várias formas que o ser humano tenta aperfeiçoar para demonstrar as características do planeta. Ao descrever o espaço por ele habitado o ser humano sente-se seguro e ao mesmo tempo apto a galgar novas possibilidades de avanços. Visto que nos dias atuais já ultrapassamos as fronteiras do próprio planeta permitindo-nos observá-lo do espaço.
De acordo com o cartógrafo José Flávio Morais Castro (2012) “desde os povos primitivos comprova-se a existência do uso da cartografia. Mapearam abrigos, as trilhas para a caça, e as rotas de navegação. Portanto mapear ou representar o espaço são fatos que acompanham a humanidade desde o seus registros mais primórdios”.
“A produção de mapas ocorre desde a pré-história, antes mesmo do surgimento da escrita. Sua confecção se dava em placas de argila suméria e papiros egípcios. Ao longo da história a cartografia foi evoluindo e desenvolvendo novas técnicas e, atualmente, é uma ferramenta de fundamental importância nas representações de áreas terrestres”, acrescenta Wagner de Cerqueira (2010).
A Cartografia é criada, portanto, envolvida com este objetivo, de ser um recurso no qual o ser humano poderá demonstrar os seus conhecimentos sobre as características do planeta, e a partir destas representações permitir que se possa ter análises e interpretações sobre diversos temas pertinentes à vida humana e ao próprio planeta. De acordo com a Associação Cartográfica Internacional, a cartografia “é definida como o conjunto de estudos e operações científicas, artísticas e técnicas baseado nos resultados de observações diretas ou de análise de documentação, com vistas à elaboração e preparação de cartas, planos e outras formas de expressão, bem como sua utilização”.
Assim, desde as pinturas rupestres, uma das primeiras formas de registro e comunicação, bem como de representação o espaço, que os seres humanos tentam, mesmo que de forma rudimentar, comparando com as tecnologias existentes no mundo contemporâneo, representar o ambiente.
São conhecidas várias técnicas desenvolvidas pelos povos antigos com este fim, representar o espaço. Os povos Sumérios usaram de placas de barro para as suas formas de representações da região da Mesopotâmia; Os esquimós e astecas usaram pedras, criaram maquetes, começaram as representações em relevo; Os chineses e egípcios mesclam novas funcionalidades e técnicas aos mapas, além de servirem como representações do espaço são usados como um recurso de demarcação de terras, cobranças de impostos, uso em guerra, começam a unir o conhecimento geométrico ao cartográfico.
Os povos gregos, através do uso da trigonometria, possibilitam o desenvolvimento de novas técnicas a serem usadas na cartografia. As técnicas inventadas por estes povos são a base da cartografia contemporânea. Todo o conhecimento permeado por estruturas e conceitos matemáticos desenvolvidos pelos povos gregos tornaram-se os pilares analógicos das representações geográficas do espaço.  Para José Flávio Morais Castro (2013) “a exatidão dos mapas históricos vem sendo avaliada nas pesquisas em Cartografia Histórica por meio do uso de técnicas de geoprocessamento.” E ainda segundo Castro, “entender os mapas históricos em diferentes contextos espaciais e culturais pressupõe o entendimento das diversas informações representadas graficamente nos documentos, bem como a variedade de técnicas utilizadas na produção”.
Ao observar a história da humanidade perceberemos que vários povos e pensadores contribuíram significativamente para o desenvolvimento da cartografia. Ptolomeu, no século II, com a teoria de representação esférica do globo e Mercator, no século XVI, com as teorias de como representar a terra em uma superfície plana estão presentes até os dias atuais em qualquer análise geográfica do espaço.
Mas a própria cartografia, por meio dos seus representantes, passou por uma mudança de percepção do espaço, além de representar os aspectos físicos do planeta (relevo, vegetação, hidrografia, clima) passou a contribuir com o processo de mapeamento das ações humanas no globo. Os cartógrafos contemporâneos ao analisarem o espaço começaram a mapear as suas percepções sobre as atividades humanas, sendo elas de ordem ambiental, cultural, social, econômica, religiosa… enfim, os mapas passaram a representar, além dos aspectos físicos do planeta, as diversas dimensões da vida humana em relação ao espaço.
Em paralelo a esta nova forma de trabalhar a cartografia observa-se o advento de novas técnicas, que resultam no surgimento do geoprocessamento. Uma técnica que através do processamento de dados, utilizando-se dos recursos da tecnologia da informação, procura demonstrar por meios digitais o conhecimento cartográfico que até então era realizado de forma analógica. O processo manual de coleta, análise e elaboração das representações cartográficas, brilhantemente desenvolvido pelo trabalho de Bertin (1967) como o passar do tempo vai sendo substituído gradativamente pelo processo computacional, representada pela cartografia digital. Lembrando que o processo de análise nunca deixará de pertencer ao pesquisador, por mais que o processo computacional permita outras possibilidades de se trabalhar com os dados pertinentes à pesquisa em voga.
As diversas interfaces, encontradas em vários programas computacionais, permitem que as informações espaciais possam ser tratadas de forma dinâmica e com maior precisão de detalhes. Colaborando para que as pesquisas geográficas encontrem resultados cada vez mais significativos. O pesquisador da UNICAMP, Alysson Bolognesi Prado diz que, “o desenvolvimento da tecnologia de informação nas últimas décadas tem oferecido oportunidades de melhorar dramaticamente o processo de tomada de decisões e resolução de problemas no domínio geoespacial.”
Representar o espaço é uma prática que acompanha a humanidade desde os primórdios e que vem desenvolvendo-se em consonância com a própria evolução humana.
A contemporaneidade é marcada pelo uso do Geoprocessamento e a Cartografia que está muito presente no cotidiano de todos nós, seja para alguma atividade profissional ou pessoal. Notamos o uso do GPS, a internet com os inúmeros aplicativos de mapeamento e rotas, softwares, smartphones, tablets, notebooks, imagens de satélites, bancos de dados, entre outras, contribuíram para o acesso, difusão e aplicação da milenar arte de mapear.
* Walber Gonçalves de Souza é professor do Ensino Fundamental, Médio e Universitário na Fundação Educacional de Caratinga/MG. Graduado em História, Especialista em Ciências do Ambiente, Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade e Doutorando em Geografia – Tratamento da Informação Espacial pelo Dinter PUC-MG/UNEC.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Artigo no Jornal "A Semana".

A FORÇA DO HÁBITO
Prof. Walber Gonçalves de Souza

O ano está começando e com ele a hora de colocar em prática todas aquelas promessas que fizemos nas festas do fim de 2015. Talvez não consigamos realizar todas mas a princípio fazem parte dos nossos objetivos para 2016. 

Acredito que muitos destes pedidos feitos por todos nós, são bem parecidos. Queremos e sonhamos sempre por dias melhores, por novas oportunidades, que os nossos problemas coletivos; cito a violência, corrupção, pobreza, falta d'água, entre outros, sejam resolvidos. Enfim, queremos sempre uma sociedade melhor, mais justa, fraterna, onde cada um de nós possa viver sem medo, sem desespero, e claro, com dignidade.
Mas algo esquisito parece acontecer com a sociedade quando generalizamos. Todos os anos, aparentemente fazemos os mesmos pedidos, isto nos permite concluir, que eles não foram solucionados. Mas por que acontece esta situação? Qual é o X da questão? Por que os nossos sonhos, os nossos pedidos, ficam presos na teoria do desejo, mas não se transfiguram na realidade concreta, que é a vida de cada um de nós?
Várias respostas poderiam ser dadas, pois a questão é complexa. Mas penso que entre elas chegaremos a uma: a força do hábito nos impede de mudar. Isto mesmo, a força do nosso hábito, que são as nossas manias, nossas crenças, nossos jeitos, impede-nos de vislumbrar coisas novas, portanto, de mudar. Quem é que nunca ouviu as seguintes expressões: eu sou assim; sempre faço desse jeito; aprendi assim. Elas reforçam a necessidade de antes de querer mudar qualquer coisa, devemos começar por nós mesmos. 
Assim, queremos o novo mas como nossas atitudes são sempre as mesmas, acabamos chegando sempre no mesmo resultado, que é a ausência da concretização daquilo que queremos. Como podemos ter um resultado diferente se agimos sempre da mesma forma? Acredito que fica difícil, pra não dizer, impossível!
Portanto, se você observar bem, boa parte dos nossos problemas, para serem resolvidos devem começar primeiro, com a gente mesmo, com a coragem de mudar as nossas atitudes. Chega de esperar que o outro mude, que o outro faça. Não dá mais para pensar que somente os outros estão errados e que precisam mudar. O mundo, a nossa cidade, precisa de mudança de postura, de atitude. Senão ficaremos eternamente fazendo promessas e sendo ano após ano consumidos pelas mazelas que fingimos não querer acreditar que todos nós também somos responsáveis por ela. 2016 é o ano da atitude, da mudança, do início da construção dos nossos sonhos. Vamos! Acredite, podemos mudar, colaborar!

Artigo publicado no jornal "A semana", no dia 25/01/16.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Artigo Jornal Estado de Minas


Artigo publicado no Jornal Estado de Minas no dia 27/12/2015.

Artigo Diário de Caratinga

O verde está ficando cinza
Walber Gonçalves de Souza

                Encontramos uma terra em que se plantando tudo dá. Esta foi uma das características apontadas por Caminha, escrivão da esquadra de Cabral em 1500, para descrever o local que eles acabam de "achar". Desta maneira ele quis demonstrar uma das qualidades daquelas terras recém "descobertas".
                As cores nacionais estampadas na nossa bandeira demonstram nossas riquezas, mas neste texto destacarei uma, o verde que representa toda a diversidade ambiental do nosso país, nossas matas e sua biodiversidade.
                Associando o pensamento de Caminha e o verde da bandeira, podemos chegar a uma conclusão: ambas retratam a abundância das nossas riquezas naturais e como passamos a ser vistos e reconhecidos mundialmente.
                Mas a abundância que em si é algo positivo, pois a própria expressão indica fartura, riqueza, transmite a sensação de uma quantidade de algo que extrapola as necessidades momentâneas, portanto induz à segurança, ao conforto, cria uma sensação de que tudo está bem, pois nada há de faltar.
                Mas por outro lado pode-se tornar uma problema, pois ao entrar na zona de conforto corremos o risco de deixar de tomar medidas que são necessárias para a manutenção e até mesmo para aumentar  tudo aquilo que já tínhamos em abundância.
                Dito tudo isto, vejamos o que aconteceu no nosso país: durante anos ficamos extraindo uma árvore, que ganhou o nome de pau-brasil, pensando que nunca iria acabar, o resultado é que há resquícios de mata atlântica aqui e acolá e muitos brasileiros nem conhecem esta famosa planta. Pelo visto não aprendemos a lição e estamos fazendo a mesma coisa com a floresta amazônica. Como aqui em se plantando tudo dá, nossos práticas provocaram o esgotamento do solo de parte do nordeste brasileiro, ao cultivar durante décadas a cana de açúcar, depois fomos para a região sul e continuamos com a mesma forma de manejo tendo com base a monocultura. O  desfecho foi,  regiões que apresentam alto índice de áreas desertificadas, "terra morta". E pelo visto a história tende a se repetir na região centro-oeste.
                A região sudeste não passou despercebida aos olhares evolutivos do ser humano. Somos a região da política do café com leite, portanto duas práticas de desenvolvimento econômico ligadas diretamente ao meio ambiente, ou seria ao descaso do uso dele, os dias atuais respondem a esta inquietação! Mas não podemos esquecer  algo muito pertinente ao momento presente que tem sua raiz em épocas remotas, recordemos o ciclo do ouro, que acabou ganhando a companhia de outros minerais, ratificando ainda mais o nome do nosso estado Minas Gerais, muitas minas em todos os lugares. O desfecho de tudo isto, pergunte aos moradores  das margens do Rio Doce e encontrará a resposta.
                Somos a caixa d'água do planeta. O paraíso na terra. Nunca vai faltar água por aqui. Nossos rios são abundantes. Enfim, quantas afirmativas deste tipo você já ouviu? Aposto que além destas tantas outras. Mas onde está a água? Que angústia estamos vivenciando nos nossos lares. Muitas vezes a torneira insiste em ficar silenciosa. Quem sabe o silêncio dela não é uma alerta para a nossa consciência.
                Nossa maior riqueza, a abundância, transformou-se no nosso maior problema. Pois criou uma mentalidade de que podíamos viver de qualquer forma, de qualquer jeito, sem se preocupar com nada. E assim anos após anos fomos desenvolvendo, criando, mudando sem nenhuma preocupação com as conseqüências que os nossos atos poderiam provocar ao meio ambiente, ao equilíbrio do ecossistema.
                O conceito de Desenvolvimento Sustentável é muito pertinente pois sinaliza posturas que deveríamos ter para continuar nosso processo de desenvolvimento mas de forma consciente. Ensina-nos que a abundância que temos merece ser bem administrada para continuar existindo e sendo fonte de possibilidades para que cada um de nós também possa continuar existindo.  
                O verde que simboliza nossa biodiversidade não pode perder a sua cor. Caso  contrário num futuro muito próximo teremos que mudar a cor da nossa bandeira, o verde está ficando cinza.


Walber Gonçalves de Souza é professor do Centro Universitário de Caratinga - UNEC.

Crônica Diário de Caratinga

Guerra civil silenciosa
Walber Gonçalves de Souza


                Entendemos por guerra civil o conflito existente entre os membros de uma própria nação, geralmente grupos que brigam entre si por algum objetivo. De um modo geral estes grupos são formados pela minoria da população, mas seus efeitos são praticamente percebidos e vivenciados por todos. A violência e o terror são as características principais que alimentam os conflitantes.
                Em alguns lugares a guerra civil está escancarada, um exemplo atual seria o conflito entre os sunitas e xiitas, dando origem ao famoso estado islâmico e seus feitos. Historicamente poderíamos destacar os seguintes países que foram e alguns ainda são palcos de guerras civis cruéis: o apartheid na África do Sul, Camboja, Irlanda do Norte, Síria, Congo, Caxemira, Haiti, Uganda, Angola... e tantas outras espalhadas mundo afora que formam um lista considerável.
                Mas vivemos no Brasil, em um país de povo pacífico, amável, acolhedor, que está sempre de braços abertos. Portanto, não devemos temer, pois nunca correremos o risco de vivermos uma guerra civil. Será?
                Aproveite um domingo, durante o dia, para fazer uma caminhada pela cidade onde  você mora e faça o seguinte exercício: caminhe vagarosamente pelas ruas do bairro em que você reside e vai observando as habitações com calma, com raríssimas exceções chegará à seguinte conclusão; praticamente em todas elas será possível verificar a existência de grade nas janelas, portões, muros, em algumas cerca elétrica e monitoramente via câmeras.              
                Outra experiência que você poderá fazer, embora esta eu não aconselho, é sair pela madrugada e caminhar pelas ruas, você encontrará muitas pessoas pelas esquinas, vivendo o submundo que envolve o tráfico de drogas. E infelizmente estão prontas para tudo, roubar, matar, prostituir... Em várias cidades as pessoas têm medo de sair à noite, em outras existem locais que você pode entrar ou passar, mas não sabe se sairá vivo ou conseguirá concluir o seu trajeto em paz.
                Aos poucos vai nascendo de forma silenciosa um guerra civil, onde o medo e a impunidade faz com que as pessoas se tranquem em suas próprias casas. Em contrapartida a minoria que aterroriza e está disposta a tudo domina as ruas, os bairros, criando uma sensação de insegurança.
                Todos os dias as páginas dos jornais e as reportagens dos telejornais estão repletos de pessoas assassinadas, roubadas, cada crime que acontece que faz nascer uma pergunta cruel: como pode o ser humano ter coragem de fazer uma coisa dessas? Ou até mesmo a seguinte exclamação: a que ponto está chegando o ser humano! Algumas capitais de Estado parecem estar vivendo uma guerra civil aberta, todos os dias morrem inúmeras pessoas vítimas desses conflitos.
                Sabemos que não podemos ser simplistas em relação a este problema, nem tão pouco fingir que ele não está acontecendo. Mas entre as várias causas, destaco a crescente e manipulada opinião pública que prega contra as autoridades constituídas. As instituições estão perdendo o seu papel e com a decadência delas o caos se generaliza.
                Podemos afirmar com toda a certeza do universo que existem pais que são maus pais, que não cumprem com o seu papel de provedores dos seus filhos e do lar. Da mesma forma, que existem em todas as profissões maus profissionais. Não podemos também tampar o sol com a peneira e infelizmente constatamos que nas mãos de alguns daqueles que deveriam cuidar da segurança, portanto os nossos agentes de segurança pública, os policiais, há muita sujeira, corrupção, desonestidade, situações que mancham as instituições às quais eles pertencem. Mas este é o grande problema, acreditar que estas pessoas são a maioria. Assim não se "combate" os maus pais, os maus profissionais, os maus policiais. Acham mais fácil acabar com a família, permitir que qualquer pessoa de qualquer jeito se torne um profissional de qualquer área e denegrir as instituições policiais, como se todos os policiais não prestassem.
                Combatendo os maus abriremos espaços para os bons, para os justos, para aqueles que cumprem com orgulho as atribuições para as quais foram designados. Não podemos permitir que em nome da impunidade e dos maus (que acredito ser a minoria) se instale nas nossas cidades uma silenciosa guerra civil, pois no dia em que ela se tornar evidente aí sim, nossas casas irão se tornar definitivamente a nossa prisão.


Walber Gonçalves de Souza é professor do Centro Universitário de Caratinga / UNEC.

Artigo Diário de Caratinga

TRAVESSIA

Crônica publicada no dia 08/12 no Jornal Diário de Caratinga.


Fim de ano chegando, momento de parar para festejar, para rever amigos, colocar aquelas coisinhas que ao longo do ano foram se acumulando no lugar e também a época de reavaliar a vida, nossos pensamentos, valores e atitudes.
Como diria Fernando Pessoa, “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos”
Uma das características da complexidade humana é justamente a nossa capacidade de mudar, desde que haja necessidade e vontade, é claro. Algumas mudanças fogem ao nosso controle pois fazem parte do desenvolvimento biológico, fazem parte da natureza humana, nascer, crescer, desenvolver-se e deixar o legado para a prosperidade da própria humanidade. Agora, outras são frutos das nossas escolhas, do ambiente cultural em que vivemos, das pessoas com que nos relacionamos, dos sonhos e esperanças que cultivamos.
Ao longo da vida, portanto, passamos por vários ciclos independentemente se eles são próprios da natureza humana ou se são frutos das nossas escolhas. Assim, estamos vivendo eternos momentos de travessias, que representam as nossas passagens por estes ciclos, até que eles se completam e outros comecem, dando início a uma nova travessia.
Entre estas travessias podemos destacar algumas que fazem parte das comemorações de fim do ano. Quando alunos estão vivendo seus momentos de formatura, fechando sua travessia escolar, acadêmica, e vivendo a expectativa dos dias vindouros. Outros ainda, terminando o ensino médio e preparando-se para dar início ao mundo universitário.
No dia a dia da vida nos deparamos também com momentos de travessias diversas, a casa que finalmente ficou pronta para tornar nossa moradia ou a reforma que revigorou o ambiente; a viagem dos sonhos que foi realizada; o casamento de algum ente querido; a gestação de um filho; o fim de um ciclo em algum emprego; a mudança para um nova casa numa nova cidade; o fim da vida de solteiro ou do casamento; pessoas que deixam a nossa vida, pessoas que entram na nossa vida; enfim, são intermináveis as situações que podem nos proporcionar situações de travessia.
Mas devemos ter consciência que as travessias não são fáceis, exigem renúncias, mudanças, quebras de paradigmas. Um exemplo simples da minha época de infância, período de férias escolares, lembro-me da pinguela que até hoje está localizada no mesmo lugar unindo as margens do Rio Caratinga, mas que seria necessário transpô-la para que minha família pudesse chegar até à casa dos meus avós que moram na zona rural. Ainda em casa o frio na barriga aparecia e com ele o medo de cair no rio, mas a vontade de revê-los e estar com os primos que reuniam-se neste período era maior possibilitando assim que aquela barreira mental fosse ultrapassada.
Mas em todas elas floresce algo de importante, incrementa novas possibilidades de aprendizado, do surgimento de novas amizades, descobertas inesperadas, proporcionando um novo mundo que colabora para o nosso aperfeiçoamento humano e intelectual.
Não querer conviver com as travessias é deixar o mofo invadir a alma, significa paralisar-se aos convites que a vida nos oferece a todos os instantes proporcionando-nos possibilidades infinitas de sermos melhores. Não querer conviver com as travessias é permitir o definhamento da existência, passando pela vida sem que ela se gaste em plenitude. Não querer conviver com a travessia significa querer estocar algo que não se estoca, a própria vida, que possui dinâmica própria mas permite-nos por os adornos.
Assim, a intensidade da coragem que permite a travessia é a mesma intensidade da felicidade de chegar na outra margem do rio, de curtir uma roupa nova, como diria Fernando Pessoa, de descobrir que há novas possibilidades, que há novos horizontes, que como diria Cazuza "a vida não para".
Lulu Santos na canção "Tempos modernos" dizia, "eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não". Milton Nascimento e sua famosa música "Travessia" e tantos outros autores que se debruçaram sobre este tema transformando-o em arte, convoca-nos para uma reflexão: só há travessia para quem se permite atravessar.
Walber Gonçalves de Souza é professor.

domingo, 6 de dezembro de 2015

NOSSAS LEIS SÃO ILEGAIS E IMORAIS?
Artigo publicado (01/12) no Jornal Diário de Caratinga.

Lembro-me de uma propaganda de biscoito que tinha o seguinte slogan: “tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”. Parafraseando o marketing do produto digo: o brasileiro é corrupto porque nossa lei é corrupta ou a lei é corrupta porque o brasileiro é corrupto? Que sinuca de bico conseguir uma resposta convincente para esta questão.
Como cidadão percebo que os três poderes da nação (executivo, legislativo e judiciário) estão presos nas artimanhas das leis que eles mesmos criaram. As intermináveis interpretações e jurisprudências estão deixando nossa nação à deriva, como um barco sem rumo. A luz da lei não está clara, depende de quem conduz a lanterna, de quem dá foco e direção ao facho de luz. E é justamente isto que faz com que interesses particulares sobreponham aos interesses da nação.
E talvez a causa de tudo isto nasça justamente de como todo o processo de formação das leis acontece. Quando o eleitor, de forma corrupta, desonesta, interesseira, se omite, votando em qualquer um ou vende seu voto ele está dando o primeiro passo para toda esta tragédia política que estamos vivendo atualmente. Pois, eleito um corrupto, podemos ter certeza que as leis que ele irá criar serão para proteger a si mesmo e aos seus atos.
Para piorar, aqueles que ocupam os cargos no judiciário, na sua grande maioria, mas acredito que sejam todos, estão ali justamente porque foram indicados diretamente pelos eleitos pelo nosso voto, os nossos representantes do executivo e legislativo. Parece legal, mas não é não! Pense bem, vou citar uma situação como exemplo: um deputado cria e aprova uma lei que parece ser fenomenal, juridicamente perfeita, mas deixa uma pequenina brecha de ambiguidade no último parágrafo do último artigo da lei, totalmente digna de interpretação, depois ele colabora na aprovação de quem será o membro do Supremo (esfera nacional), do Tribunal de Justiça (esfera estadual) ou até mesmo dos juízes (esfera regional) que ocuparão as vagas existentes nos fóruns em todos os cantos do Brasil. Matou a charada? Estes serão os responsáveis por interpretarem as leis ambíguas que foram criadas por quem os indicaram. Assim nasce a ciranda maldita das relações políticas nas terras tupiniquins. Quando acreditamos que as coisas vão acontecer, que agora vai dar certo, que as coisas vão tomar rumo, a sensação de frustração aparece, foi muito barulho pra pouco resultado e tudo, com raríssimas exceções, acaba na famosa pizza.
Mas alguém poderia estar pensando: nossa justiça está funcionando, tenho visto várias pessoas serem presas e condenadas. Ai é que entra a moral de outro ditado popular, “toda regra tem a sua exceção”, nem todos os membros do poder judiciário compactuam ou seguem a cartilha do escárnio da política brasileira. Pena que estes são a infinita minoria, pois têm a coragem de enfrentar um sistema montado para não funcionar de forma correta e justa. Não podemos esquecer também que nossa história é cheia de bodes expiatórios que morrem e são condenados para livrarem a culpa das costas dos comparsas, que como ratos às escondidas continuam a devorar silenciosamente os produtos das despensas, gavetas e armários. Continuam a depenar o erário da nação!
A reforma que queremos e precisamos é muita mais ampla. Faz-se necessário mudar uma série de coisas e um bom começo seria dar autonomia para a formação hierárquica do poder judiciário, onde o mérito realmente seja a escada que levará à ascensão na carreira e não a continuação deste promíscuo processo de indicação para os cargos superiores dentro do judiciário. Indicações que não almejam a competência técnica simplesmente, mas sim a competência em fazer da lei um escudo para a impunidade. Percebo que se criou um ciclo de intervenções políticas que afasta o mérito e estabelece um corporativismo mesquinho entre os poderes.
A reforma que queremos deveria passar também por leis claras, onde as ambiguidades não estejam tão presentes, dando brecha ao famoso jeitinho brasileiro de interpretações por interesses. Onde já se viu um pilantra transfigurado em forma de representante popular ter direito a foro privilegiado, à imunidade parlamentar! É brincadeira, é zombar descaradamente de cada um de nós cidadãos brasileiros. Sem falar em uma série de leis que estão defasadas.
Nossas leis estão presentes em quase tudo menos na realização da justiça. Pelo visto, a dita Constituição Cidadã de 1988 ainda carrega a essência conservadora, elitista e segregadora da Constituição da Mandioca de 1824.
Walber Gonçalves de Souza é professor.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

terça-feira, 24 de novembro de 2015


Crônica

EU NÃO RIO QUANDO OLHO PARA O RIO
Crônica publicada hoje (24/11) no Jornal Diário de Caratinga em parceria com Edcarlos Freitas.

No lugar onde nasci beleza igual nunca se viu, um jardim da natureza, águas cristalinas, céu cor de anil, árvores que dançam quando vem o vento; sem contar o brilho que o luar vem me trazer, que lugar bonito! Não canso de me gabar, de nascer em tal paraíso e em tal paraíso morar.
Um dia estava eu a passear pela cidade quando olhei e vi algo estranho andando entre a cidade, devagar, quase parando, seguia seu destino já quase morto, algo sombrio, escuro, perguntei o que era aquilo a um senhor que caminhava pela calçada, e com a voz entrecortada me respondeu sem pensar muito, isto é o rio. Fiquei assustado com o que vi.
Não é novidade para ninguém que o amanhã é incerto, porém nos últimos dias esta afirmação vem se tornando mais real. Desde os primórdios o rio sempre foi algo de muita importância para a sociedade; nas civilizações, desde muito cedo os homens procuraram habitar em regiões próximas aos rios, pois nestas regiões existia abundância de água potável para os membros da tribo e para os seus animais. Os vales do rio Nilo no Egito; a região conhecida como Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, aproximadamente onde hoje é o Iraque; o rio Indo, aproximadamente no noroeste do subcontinente indiano; os rios Amarelo e Azul localizados na China foram rios nos quais em suas margens se desenvolveram grandes civilizações.
O rio como vemos hoje é um espelho que reflete a ignorância humana, uma espécie que dentre tantas tem grande habilidade de destruir seu habitat, e perguntar às pessoas qual a contribuição de cada um para a poluição do rio, é como perguntar a um peixe o quanto ele se sente molhado. Assim cada árvore derrubada, cada pedaço de papel lançado nas águas ou nas ruas torna-se para o homem um histórico criminal, homicídio culposo quando há intenção de matar, e matar a si próprio e ao próximo.
Uma vez Jesus veio à terra e até tentou ensinar sobre como “ser humano”, mas parece que não deu muito certo, ensinou a zelar pelas coisas da natureza, ensinou a amar o próximo, mas no final não entendemos nada.
Lembro-me de uma canção que sempre se ouve nos finais de anos “o futuro já começou”, talvez começou mais cedo, e nós ainda não nos preparamos para recebê-lo, com o pouco de água que nos resta, ainda assim dedicamos parte do nosso tempo para contaminar o rio. Esperança, palavra simples, humilde, mas que assume seu lugar na boca dos moradores de Caratinga. Atitude, palavra bonita só quando colocada em prática. E lá se vai o rio, e lá vão as águas, chegou em uma curva, dobrou para esquerda e sumiu, me despedi com lástimas, talvez não mais voltará.
Walber Gonçalves de Souza é professor e Edcarlos Freitas graduando em Psicologia pelo Centro Universitário de Caratinga (UNEC)

PALESTRA NA E. E. PRINCESA ISABEL


@@@@ PALESTRA NA E. E. PRINCESA ISABEL @@@@
Quero agradecer a acolhida de todos da escola, foi muito bacana poder compartilhar um pouco sobre a "Diversidade cultural no Brasil". Um tema desafiante e provocante!!!!
A palestra aconteceu no dia 16 de novembro.





Artigo Jornal

REPÚBLICA DE LAMA
Artigo publicado no Jornal Diario de Caratinga (17/11)



15 de novembro de 1889, o Império comandado por D. Pedro II não suportou a pressão política imposta pelos seus adversários e através de um plano desenvolvido por várias correntes de opositores e transfigurado em forma de golpe militar, inicia-se o período republicano da história do Brasil.
Nestes 126 anos de república vários fatos poderiam ser citados para caracterizarem este longo período. Passado pouco mais de um século do fim do Império ainda assistimos o engatinhar de um país que tenta encontrar os rumos de uma nação republicana.
O fato ocorrido recentemente em Mariana, mas que ainda se arrasta pelo leito do Rio Doce cortando uma série de cidades, permite-nos uma reflexão sobre a nossa república. Simboliza com perfeição o que vem se tornado dia após dia a República Federativa do Brasil.
Desde o início do ciclo do ouro quando o Brasil ainda era colônia de Portugal, a mineração sempre atendeu a interesses particulares. Os senhores que se afortunaram com o ouro das Minas Gerais nunca passaram de uma “meia dúzia” de pessoas. E desde aquela época o meio ambiente, as pessoas mais simples nunca foram sequer percebidas. Pelo contrário, sempre tratadas com descaso. Mas o nosso assunto é a república! E o que mudou com a Vale agora Samarco? Nada, os interesses são os mesmos, os que lucram são os mesmos (a “meia dúzia”) e a grande maioria, literalmente está na lama. Sendo relegada ao nada!
Mas não seria uma atitude irresponsável depositar toda a culpa somente na Samarco, que é uma empresa de capital misto (privado e governamental)? Acredito que sim! Ela é a responsável direta pelo empreendimento e deve arcar com toda a sua responsabilidade, que olhando pelo viés financeiro, para ela não é absolutamente nada. Mas olhar só financeiramente é muito pouco quando estamos falando de pessoas, aí meu caro leitor, não haverá preço que poderá pagar a dor, o sofrimento, as perdas de entes queridos e tudo mais que está envolto nesta tragédia.
Agora, penso ser enganoso depositar somente na empresa a responsabilidade pelo acontecido, acredito que vários outros fatores colaboraram tão decisivamente para que aquela barragem de lama estourasse e se transformasse nesta catástrofe que estamos vivenciado ao longo do percurso do assassinado Rio doce.
E que fatores são estes?
A omissão do Estado, que ao longo dos anos faz vista grossa para os problemas que não lhe interessa resolver de fato. Finge não ver os problemas em troca de apoio (dinheiro) para o financiamento de campanha eleitoral. Basta verificar que a empresa é doadora de elevados recursos para inúmeras campanhas.
A negligência das autarquias responsáveis pelo setor. Onde estão os órgãos fiscalizadores? Por que eles não atuaram como deveriam? Por que prevaricaram? Se omitiram? Silenciaram? Teoricamente todo empreendimento da dimensão da Samarco deveria ter uma série de documentos, relatórios, análises de impactos ambientais e sociais que tratam de todas as questões que envolvem a atividade por ela realizada. Não somente durante o processo, mas que resguardem futuros problemas que possam vir acontecer. Se a empresa e o Estado foram pegos de “surpresa” onde estão os documentos que deveriam ter sido feitos? Certamente foram preenchidos, carimbados, aprovados, conduzidos aos órgãos executivos, assinados; portanto passaram por todas as etapas que o protocolo exige, inclusive o da propina, o da corrupção, que faz com que as coisas, mesmo estando erradas caminhem como se estivessem certas. Na esperança de que nada imprevisto ocorrerá.
Enquanto o interesse particular ou de grupos que fazem de tudo para manter-se no poder for maior que o interesse coletivo, podemos ter certeza que outras tragédias virão, da mesma forma que sabemos que esta não foi a primeira da nossa história.
126 anos de República! 126 anos de República da Lama, pois a grande maioria de nós sempre esteve atolada nela, pena que agora, infelizmente, de forma literal. Os males dos bastidores da república infiltraram-se nas salas e antessalas das empresas, em diversas contas bancárias espalhadas pelo mundo, nas ondas dos celulares, nos crimes de colarinho branco ou colorido, nos interesses espúrios e mesquinhos daqueles que insistem em dizer que governam, tudo sem nenhum pudor ou preocupação com as pessoas que podem ser de alguma forma afetadas.
Walber Gonçalves de Souza é professor.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

ATÉ QUANDO AS COISAS CONTINUARÃO ASSIM?
Todo dia é a mesma coisa. Pode ser via televisão, revista, jornal, redes sociais… Todos os dias as notícias que envolvem a vida pública da nossa cidade são as mesmas. Convivemos diariamente com desmandos e sucessivas gestões catastróficas ou que beiram a melancolia.
Basta voltar o olhar poucos anos para conseguirmos criar uma lista de vários fatos que comprovam a situação de mesmice que impera na vida pública municipal. Vamos recordar alguns destes casos: um prefeito terminou seu mandato em meio ao lixo, que representa bem o que foi sua gestão; outro mergulhado em suspeitas de envolvimento com empreiteiras, máfia da ambulância, doação irregular de terreno; os mais recentes atolados em escândalos, compras mal explicadas de terreno que deveria abrigar casas populares e fazenda particular, fraudes em licitação, merenda de qualidade inferior ao valor pago, peças de veículos a preços exorbitantes, máfia de aquisição de remédios. Até hoje ninguém explicou como realmente funciona a dita cooperativa que movimenta o transporte da prefeitura, mas que já está mais que evidente que movimenta milhões aparentemente “sem destino”; obras algumas paralisadas, outras construídas com qualidade duvidosa e com clara percepção, em todas elas, de existir superfaturamento, falta de transparência, dinheiro entregue para vereadores com direito a filmagem e tudo mais, chantagem nos bastidores como forma de barganha de interesses particulares, reforma de carro que nunca existiu; refiro-me diretamente ao carro da Câmara, sem falar na mais evidente e escancarada falta de compromisso com os interesses da sociedade manifestada através da omissão, negligência, prevaricação, corrupção e assim vai.
E o resultado de tudo isto? Todo dia é a mesma coisa. Basta observarmos que nada efetivamente acontece. A clareza da impunidade fica estampada no sorriso de cada um dos personagens que dia a dia envolvem-se nestas intermináveis situações.  Estão todos por aí, sendo vistos pelas ruas da cidade distribuindo abraços e tapinhas nas costas como se nada, absolutamente nada tivesse acontecido.
E o resultado de tudo isto? Todo dia é a mesma coisa. Uma cidade paralisada no tempo que está se acostumando a ser mal gerida. Ano após ano os problemas se repetem, as promessas também e muito pouco é feito no sentido de reverter, de fato, todo este cenário.
E o resultado de tudo isto? Todo dia é a mesma coisa. Uma sociedade desanimada com o rumo do próprio destino, sem sonhos, sem esperança, sem força, sem coragem. Como diria Raul Seixas, estamos todos “com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar”.
E o resultado de tudo isto? Todo dia é a mesma coisa. O sujo fala e acusa o mal lavado, que é julgado pelo porcalhão. E para não perderem a lavagem organizam a divisão do chiqueiro, da forma mais lamacenta possível e assim continuam com as suas atividades imundas.
E o resultado de tudo isto? Todo dia é a mesma coisa. Os poucos que levantam suas vozes acabam tendo suas imagens ofuscadas ou até mesmo confundidas como se todos fossem iguais. E aqueles que deveriam separar o joio do trigo, que é cada um de nós, se esquecem da sua importante e decisiva participação, pois não acreditam mais no processo, na regra do jogo, que são as nossas leis e todo o funcionamento do aparato do Estado, estruturalmente e hierarquicamente organizado.
Uma coisa é certa: não da mais para continuar assim. As coisas precisam mudar, tomar novos rumos. Está na hora de fazer o que é preciso ser feito, o essencial, o primordial. Não temos mais tempo para perder, para esperar. Chega de lermos, ouvirmos, presenciarmos sempre as mesmas notícias, queremos páginas novas, como novas manchetes. Para isto acontecer não há outro caminho, a não ser ter a coragem de tomar as atitudes necessárias. E por hora, esta atitude cabe àqueles que foram escolhidos para governar. Pois esta é a função à eles delegadas.
Coronelismo, corporativismo, amadorismo, apadrinhamento eleitoral, irresponsabilidade são adjetivos que não combinam com uma gestão moderna e eficaz. Enquanto estas forem as características dos nossos gestores a lista iniciada no início deste texto nunca parará de crescer.
Portanto, até quando as coisas continuarão assim?
Walber Gonçalves de Souza é professor. (Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga)