domingo, 28 de fevereiro de 2016
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Artigo no Jornal Diário de Caratinga
A MÃE, A MENINA E O LIXO
Artigo publicado hoje (23/02) no Jornal Diário de Caratinga.
Provavelmente seria um dia como outro qualquer, as pessoas acordando, saindo de casa e dirigindo-se a seus postos de trabalho. Mas aquela manhã foi diferente, ao sair de casa algumas pessoas se depararam com uma imagem estranha vindo de um monte de entulho misturado com lixo e ao se aproximarem perceberam que aquela imagem se tratava de uma criança recém-nascida ali jogada.
Num primeiro momento o espanto, os gritos, as fotos, noutro o desespero, a raiva, os julgamentos. Todos queriam saber por qual motivo aquele episódio estava acontecendo. Pois não era uma mulher que havia abandonado uma criança, mas sim uma mãe que deixara sua filha à mercê da morte. E as respostas, é claro, não tardaram a aparecer, a culpa é da mulher, da mãe.
Como o ocorrido é recente, as letras misturam-se com a indignação, e isto pode levar a reflexões desprovidas de sentido, mas como uma forma de desabafo e mesmo correndo o risco de palavras descabidas, vou tentar deixar algumas análises que a meu ver cabem perfeitamente na triste realidade em questão.
Sabemos que o abandono de crianças em lixos, caçambas, calçadas não é um fato novo nem tão pouco incomum na nossa sociedade, infelizmente periodicamente somos envolvidos com noticiários deste tipo. Este não foi o primeiro caso e certamente não será o último. Mas o que está provocando tais comportamentos?
É claro que o sentimento de raiva torna-se presente em uma ocasião desta. Saber que uma mãe simplesmente descartou sua filha, como se fosse uma embalagem sem utilidade alguma é dolorido. É preciso muita calma para não dar a ela o mesmo destino. E é preciso ter calma, muita calma, respirar e pensar. Assim deixo alguns questionamentos.
Primeiro: onde está o pai desta criança? Onde está aquele que deveria ser o corresponsável por acompanhar a gestação, por cuidar da gestante? Onde está o homem que foi homem/reprodutor, mas pelo visto não quis ser pai?
Milhares de crianças na nossa cidade, no nosso país, são abandonados pelos seus pais, muitos sequer recebem o seu nome, suas certidões de nascimento carregam o vazio do abandono, outros nunca tiveram um contato que durasse pelo menos um dia. Mas culpar a mãe, a mulher é sempre mais fácil.
Segundo: o alimento intelectual da maioria, com a desculpa de que tudo é cultura, é recheado de um vazio, que até o vácuo se sente cheio. A banalidade da vida está estampada em todos os lugares. A atual configuração do ser parece receber uma programação em que os valores são algo sem procedentes, sem sentido. Assim, matar, viver, nascer… parece ser a mesma coisa. Desde tenra idade somos envolvidos por uma série de situações que retiram do ser a sua essência.
Uma pessoa que cresce acreditando que tudo aos poucos vai perdendo o seu sentido, que o que importa na vida é se dar bem custe o que custar, vai valorizar o quê?
A morte da menina é um retrato cruel de milhares de crianças que estão mortas pelo abandono, mas que ficam perambulando pelas ruas como zumbis, sem alma, sem rosto, sem destino, morrendo aos poucos. A morte da menina é um retrato cruel de como os adultos percebem a vida, os seus semelhantes.
Terceiro: voltando à mãe, mas uma peça desta engrenagem desumana, onde estão todos aqueles que por competência deveriam estar acompanhando de perto a gestante? Onde está sua família? E os órgãos públicos que deixam as pessoas abandonadas em troca dos intermináveis conchavos politiqueiros? Onde estão as pessoas que conheciam a mulher e sabiam da situação dela e preferiram o silêncio?
Não quero vitimizar ninguém, nem tão pouco defender o que não se defende. Pois isto não cabe a mim! Mas nossa sociedade aos poucos vai colhendo o que ela mesma está plantando. E não adianta fechar os olhos, os ouvidos, tudo é fruto daqueles que se acovardam, daqueles que não têm coragem, daqueles que se omitem, daqueles que preferem ver a banda passar, daqueles que preferem o silêncio, o silêncio da covardia.
Walber Gonçalves de Souza é professor.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
Jornal Diário do Rio Doce
Artigo "República de lama" publicado no Jornal Diário do Rio Doce,
da cidade de Governador Valadares no dia 25 de novembro de 2015.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
terça-feira, 2 de fevereiro de 2016
Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga
CUIDE DO SEU BAÚ
Artigo publicado (02/02) no Jornal Diário de Caratinga.
Em tempos idos era comum a prática de se guardar tudo. Qualquer coisa que fosse não era descartado, pois se acreditava que em algum momento poderia ter alguma serventia. A lata de massa de tomate depois de usada virara caneca, que de tanto usar furava e acabava tornando-se um suporte de prender as antigas vassouras feitas de um tipo de mato, muito usada nas roças para varrer os terreiros. Os pinicos viravam vasos de plantas, as sacolas de leite transformavam-se em forros de mesa, as roupas de filho em filho transfiguram-se em panos de limpeza. Tudo durava literalmente até acabar, portanto, as mais diversas experiências tornavam-se mais duradouras.
Assim, ao longo da vida as pessoas, mesmo sem perceber, colecionavam um pouco de tudo. E as coisas mais importantes acabavam ganhando um destino especial, os baús ou em outros casos uns grandes caixotes de madeira, muito comum nas antigas casas rurais.
Estes baús gradativamente vão se preenchendo de tudo aquilo que de alguma forma carrega consigo um valor que vai além da própria matéria dele constituída. As fotos marcam o tempo e levam consigo as lembranças dos momentos que ali se eternizaram, pois por serem únicos não se repetirão. As roupinhas dos recém-nascidos, os primeiros dentes, os primeiros cabelos cortados, os anéis, as alianças de casamentos dos avós, pais, padrinhos, os lenços, as canecas… Enfim, tudo aquilo que de alguma forma representa algo imaterial: as lembranças, os sentimentos, as saudades, a personificação das pessoas queridas.
O mês de fevereiro pode ser caracterizado pelo mês em que muitas pessoas despertam para a abertura da tampa dos seus baús. Quantos estão deixando as suas casas, suas famílias em busca de novos dias, de novos planos. Abrindo as portas dos seus baús para guardarem as lembranças da convivência com outras pessoas, novos ambientes, novos aprendizados.
E aos poucos o nosso baú deveria ser preenchido pelo bem mais precioso, e que nenhum ouro do mundo paga, nenhum apagador apaga e nenhum ladrão nos rouba: o conhecimento; que provém das nossas experiências, das nossas leituras, dos diálogos, dos nossos estudos, das observações que fazemos das coisas que nos rodeiam.
E por que o conhecimento se torna importante para a nossa vida? Porque além de ser uma das chaves do nosso baú será também o combustível que nos dará força para quando for a hora de termos coragem de limpar o baú.
Pois como todo recipiente chega um instante que ele começa a ficar lotado. Num primeiro momento vamos apertando aqui, ali, e tentando de alguma forma introduzir aquilo que queremos guardar, mas chega uma ocasião que começamos a perceber que a tampa não está fechando direito, que está lotado demais, até que não dá mais e verificamos que é preciso parar para cuidar do baú.
Tirar tudo para fora, conferir peça por peça e ver dentre aquelas quais merecem ocupar novamente o espaço do baú. Sobre algumas coisas ficaremos em dúvida se vale a pena guardar novamente ou não, outras teremos certeza que já não vale a pena mantê-las ali e tantas outras terão eternamente o seu espaço cativo. Pois a vida é assim, o conhecimento vai nos mostrando o que de fato tem importância para a nossa vida, para a nossa história, para a nossa existência e o que representa apenas um momento, importante quando aconteceu, mas que não vale a pena ficar simbolicamente eternizado.
Assim, quando completamos o nosso ciclo biológico na terra e os primeiros dias de luto dos familiares passam, um dos primeiros lugares a serem mexidos e remexidos é o baú de quem nos deixou. Pois dele com certeza brotarão as principais lembranças de toda a nossa vida.
Cuidar do nosso baú significa cuidar da nossa vida. O conteúdo do baú refletirá e muito o que fomos, o que acreditamos, nossas qualidades e mazelas. Cuidar do baú significa cuidar de nós mesmos. Uma vida não cabe em um baú, o que cabe são alguns momentos, algumas histórias, algumas marcas, aquilo que realmente somos. Não percamos a coragem e zelo de cuidar do nosso baú.
Walber Gonçalves de Souza é professor.
sábado, 30 de janeiro de 2016
Artigo publicado no Jornal "Diário de Caratinga"
EXEMPLOS QUE MOTIVAM
Passados milhares de anos do início da nossa existência, a humanidade encontra-se num estado de descrença, de desconfiança, de falta de credibilidade sem precedentes. Parece que não nos reconhecemos mais como seres humanos, nossa essência parece estar perdida em meio a tantos casos e ao caos de atrocidades no qual nos encontramos.
Chegamos ao ponto de duvidar da nossa capacidade de sermos bons, e isto fica evidente quando pensamos que sempre que alguém faz alguma coisa é porque quer algo em troca. Parece não existir mais espontaneidade, solidariedade, zelo ou apreço pelo outro.
O espírito do toma lá da cá parece que a cada dia está se enraizando nas pessoas, criando uma cegueira coletiva, que nos impede de enxergar e acreditar que as coisas podem ser diferentes, que existem pessoas que merecem nossa atenção, nossa credibilidade e que deveriam ser exemplos a serem seguidos, ou na menor das hipóteses, servir de motivação para as nossas atitudes.
Dentro deste contexto vou fazer um pedido a você, caro leitor: dê uma pausa na leitura deste artigo e pegue uma caneta e papel. Liste no mínimo o nome de dez pessoas que você considera bacanas, honestas, que lutam pelos seus objetivos, pessoas amigas, companheiras, aquelas a quem chamamos de “pau para toda obra”, pessoas que merecem o nosso respeito, gratidão; que aos seus olhos trabalham em prol da coletividade, que desenvolvem o bem para o próximo. Não estou pedindo nomes de pessoas perfeitas, pois sei que elas não existem, mas pessoas que podem ser caracterizadas por boa parte dos itens citados anteriormente.
Foi fácil ou difícil encontrar os nomes? Acredito que a sua listagem de nomes foi feita. Imagine agora se pudéssemos juntar todos os nomes que cada um de nós escreveu na própria folha de papel. Penso que formaria uma lista considerável. Percebem porque não podemos perder a esperança? Pessoas boas existem, mas precisam ser valorizadas. E esta é a grande questão, pois estamos perdendo tempo demais com os problemas, com pessoas que não gostam nem de si mesmas e deixando de lado o valor do mérito, de valorizar e incentivar as pessoas que merecem no mínimo o nosso respeito e gratidão.
Claro que todas as pessoas merecem ser tratadas com dignidade, todas as pessoas merecem milhares de oportunidades, todos nós erramos e podemos e temos o direito de rever nossas posturas e atitudes em prol de dias melhores. Mas ficar eternamente de forma paternalista e assistencialista, cultivando a mediocridade ai já é demais. Nossa sociedade não está suportando isto mais! Haja visto que se gasta mais com um presidiário do que um aluno, um estudante de qualquer escola deste país.
Mas voltando à nossa lista de nomes, vou citar alguns que poderiam estar presentes em muitas das nossas listas individuais, pois com certeza estariam presentes em uma lista coletiva, pois colaboram e muito com toda a sociedade, veja se você concorda comigo?! Começarei com o Dr. Igor, médico conhecido na nossa cidade justamente por ser um médico humano; Carlinhos e Gianny que lideram com muito esforço o Núcleo do Câncer de Caratinga; Vicente Van Gogh, uma pessoa espetacular, um ser humano fantástico; os inspetores da Polícia Rodoviária Federal Vander e Rodrigo Ladeira, que são exemplos de conduta e zelo pela instituição; o prof. Francisco que durante bons anos cuidou como diretor da E. E. Ludgero Alves; os casais: Maria José e Sávio (trabalha na Funasa), Ozéias e Maria, estes residentes no Bairro Floresta e Dezinho e Luiza, moradores do Bairro Esplanada, que souberam em meio à simplicidade educar seus filhos e zelar pela família; Dona Lucinéia do distrito de Santo Antônio do Manhuaçu, mulher guerreira e humana; e não poderia jamais deixar de citar minha mãe, Jeanete, quem a conhece sabe que é merecedora, pois sempre será o meu maior exemplo.
Estariam incluídas na minha lista também as seguintes pessoas: o prof. Lacerda, Angélica Nunes, meu compadre Eflaviano, este sim é pau pra toda obra, Francisco (famoso Chico Caspinha) e sua esposa Marisa, o prof. Cláudio Barros, minha sogra Maria Ferreira, Halisson da Way, Zizico Barbeiro, Dênis Gutermberg, Caio César, Dadinho, Ivania Costa, o dentista Ricardo Miranda, a zelosa Daniela Coutinho, enfim, que fantástico, muitos são os nomes que poderiam ainda ser citados.
Se os seres humanos nascem bons ou maus, é uma eterna discussão filosófica, mas que de fato muitas pessoas, cada uma da sua forma e estilo, são exemplos a serem seguidos, isto são. Cabe a nós valorizarmos estas pessoas para que, como dizia o poeta, elas não sintam vergonha de serem o que são. Que reine a meritocracia!
Artigo publicado no Jornal Diário de Caratinga, 26/01/16.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Artigo no Jornal Diário de Caratinga
A cartografia na história da humanidade
Um dos fatores que impulsionam a evolução humana é a necessidade de apresentar respostas para intermináveis questionamentos. Entre estas inquietudes observa-se o querer decifrar o próprio habitat humano. Desvendar, entender e descrever a gaia tornou-se uma necessidade humana, tanto em âmbitos intelectuais quando em termos de sobrevivência.
Desde os primórdios pode-se perceber as várias formas que o ser humano tenta aperfeiçoar para demonstrar as características do planeta. Ao descrever o espaço por ele habitado o ser humano sente-se seguro e ao mesmo tempo apto a galgar novas possibilidades de avanços. Visto que nos dias atuais já ultrapassamos as fronteiras do próprio planeta permitindo-nos observá-lo do espaço.
De acordo com o cartógrafo José Flávio Morais Castro (2012) “desde os povos primitivos comprova-se a existência do uso da cartografia. Mapearam abrigos, as trilhas para a caça, e as rotas de navegação. Portanto mapear ou representar o espaço são fatos que acompanham a humanidade desde o seus registros mais primórdios”.
“A produção de mapas ocorre desde a pré-história, antes mesmo do surgimento da escrita. Sua confecção se dava em placas de argila suméria e papiros egípcios. Ao longo da história a cartografia foi evoluindo e desenvolvendo novas técnicas e, atualmente, é uma ferramenta de fundamental importância nas representações de áreas terrestres”, acrescenta Wagner de Cerqueira (2010).
A Cartografia é criada, portanto, envolvida com este objetivo, de ser um recurso no qual o ser humano poderá demonstrar os seus conhecimentos sobre as características do planeta, e a partir destas representações permitir que se possa ter análises e interpretações sobre diversos temas pertinentes à vida humana e ao próprio planeta. De acordo com a Associação Cartográfica Internacional, a cartografia “é definida como o conjunto de estudos e operações científicas, artísticas e técnicas baseado nos resultados de observações diretas ou de análise de documentação, com vistas à elaboração e preparação de cartas, planos e outras formas de expressão, bem como sua utilização”.
Assim, desde as pinturas rupestres, uma das primeiras formas de registro e comunicação, bem como de representação o espaço, que os seres humanos tentam, mesmo que de forma rudimentar, comparando com as tecnologias existentes no mundo contemporâneo, representar o ambiente.
São conhecidas várias técnicas desenvolvidas pelos povos antigos com este fim, representar o espaço. Os povos Sumérios usaram de placas de barro para as suas formas de representações da região da Mesopotâmia; Os esquimós e astecas usaram pedras, criaram maquetes, começaram as representações em relevo; Os chineses e egípcios mesclam novas funcionalidades e técnicas aos mapas, além de servirem como representações do espaço são usados como um recurso de demarcação de terras, cobranças de impostos, uso em guerra, começam a unir o conhecimento geométrico ao cartográfico.
Os povos gregos, através do uso da trigonometria, possibilitam o desenvolvimento de novas técnicas a serem usadas na cartografia. As técnicas inventadas por estes povos são a base da cartografia contemporânea. Todo o conhecimento permeado por estruturas e conceitos matemáticos desenvolvidos pelos povos gregos tornaram-se os pilares analógicos das representações geográficas do espaço. Para José Flávio Morais Castro (2013) “a exatidão dos mapas históricos vem sendo avaliada nas pesquisas em Cartografia Histórica por meio do uso de técnicas de geoprocessamento.” E ainda segundo Castro, “entender os mapas históricos em diferentes contextos espaciais e culturais pressupõe o entendimento das diversas informações representadas graficamente nos documentos, bem como a variedade de técnicas utilizadas na produção”.
Ao observar a história da humanidade perceberemos que vários povos e pensadores contribuíram significativamente para o desenvolvimento da cartografia. Ptolomeu, no século II, com a teoria de representação esférica do globo e Mercator, no século XVI, com as teorias de como representar a terra em uma superfície plana estão presentes até os dias atuais em qualquer análise geográfica do espaço.
Mas a própria cartografia, por meio dos seus representantes, passou por uma mudança de percepção do espaço, além de representar os aspectos físicos do planeta (relevo, vegetação, hidrografia, clima) passou a contribuir com o processo de mapeamento das ações humanas no globo. Os cartógrafos contemporâneos ao analisarem o espaço começaram a mapear as suas percepções sobre as atividades humanas, sendo elas de ordem ambiental, cultural, social, econômica, religiosa… enfim, os mapas passaram a representar, além dos aspectos físicos do planeta, as diversas dimensões da vida humana em relação ao espaço.
Em paralelo a esta nova forma de trabalhar a cartografia observa-se o advento de novas técnicas, que resultam no surgimento do geoprocessamento. Uma técnica que através do processamento de dados, utilizando-se dos recursos da tecnologia da informação, procura demonstrar por meios digitais o conhecimento cartográfico que até então era realizado de forma analógica. O processo manual de coleta, análise e elaboração das representações cartográficas, brilhantemente desenvolvido pelo trabalho de Bertin (1967) como o passar do tempo vai sendo substituído gradativamente pelo processo computacional, representada pela cartografia digital. Lembrando que o processo de análise nunca deixará de pertencer ao pesquisador, por mais que o processo computacional permita outras possibilidades de se trabalhar com os dados pertinentes à pesquisa em voga.
As diversas interfaces, encontradas em vários programas computacionais, permitem que as informações espaciais possam ser tratadas de forma dinâmica e com maior precisão de detalhes. Colaborando para que as pesquisas geográficas encontrem resultados cada vez mais significativos. O pesquisador da UNICAMP, Alysson Bolognesi Prado diz que, “o desenvolvimento da tecnologia de informação nas últimas décadas tem oferecido oportunidades de melhorar dramaticamente o processo de tomada de decisões e resolução de problemas no domínio geoespacial.”
Representar o espaço é uma prática que acompanha a humanidade desde os primórdios e que vem desenvolvendo-se em consonância com a própria evolução humana.
A contemporaneidade é marcada pelo uso do Geoprocessamento e a Cartografia que está muito presente no cotidiano de todos nós, seja para alguma atividade profissional ou pessoal. Notamos o uso do GPS, a internet com os inúmeros aplicativos de mapeamento e rotas, softwares, smartphones, tablets, notebooks, imagens de satélites, bancos de dados, entre outras, contribuíram para o acesso, difusão e aplicação da milenar arte de mapear.
* Walber Gonçalves de Souza é professor do Ensino Fundamental, Médio e Universitário na Fundação Educacional de Caratinga/MG. Graduado em História, Especialista em Ciências do Ambiente, Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade e Doutorando em Geografia – Tratamento da Informação Espacial pelo Dinter PUC-MG/UNEC.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Artigo no Jornal "A Semana".
A FORÇA DO HÁBITO
Prof. Walber Gonçalves de Souza
O ano está começando e com ele a hora de colocar em prática todas aquelas promessas que fizemos nas festas do fim de 2015. Talvez não consigamos realizar todas mas a princípio fazem parte dos nossos objetivos para 2016.
Acredito que muitos destes pedidos feitos por todos nós, são bem parecidos. Queremos e sonhamos sempre por dias melhores, por novas oportunidades, que os nossos problemas coletivos; cito a violência, corrupção, pobreza, falta d'água, entre outros, sejam resolvidos. Enfim, queremos sempre uma sociedade melhor, mais justa, fraterna, onde cada um de nós possa viver sem medo, sem desespero, e claro, com dignidade.
Mas algo esquisito parece acontecer com a sociedade quando generalizamos. Todos os anos, aparentemente fazemos os mesmos pedidos, isto nos permite concluir, que eles não foram solucionados. Mas por que acontece esta situação? Qual é o X da questão? Por que os nossos sonhos, os nossos pedidos, ficam presos na teoria do desejo, mas não se transfiguram na realidade concreta, que é a vida de cada um de nós?
Várias respostas poderiam ser dadas, pois a questão é complexa. Mas penso que entre elas chegaremos a uma: a força do hábito nos impede de mudar. Isto mesmo, a força do nosso hábito, que são as nossas manias, nossas crenças, nossos jeitos, impede-nos de vislumbrar coisas novas, portanto, de mudar. Quem é que nunca ouviu as seguintes expressões: eu sou assim; sempre faço desse jeito; aprendi assim. Elas reforçam a necessidade de antes de querer mudar qualquer coisa, devemos começar por nós mesmos.
Assim, queremos o novo mas como nossas atitudes são sempre as mesmas, acabamos chegando sempre no mesmo resultado, que é a ausência da concretização daquilo que queremos. Como podemos ter um resultado diferente se agimos sempre da mesma forma? Acredito que fica difícil, pra não dizer, impossível!
Portanto, se você observar bem, boa parte dos nossos problemas, para serem resolvidos devem começar primeiro, com a gente mesmo, com a coragem de mudar as nossas atitudes. Chega de esperar que o outro mude, que o outro faça. Não dá mais para pensar que somente os outros estão errados e que precisam mudar. O mundo, a nossa cidade, precisa de mudança de postura, de atitude. Senão ficaremos eternamente fazendo promessas e sendo ano após ano consumidos pelas mazelas que fingimos não querer acreditar que todos nós também somos responsáveis por ela. 2016 é o ano da atitude, da mudança, do início da construção dos nossos sonhos. Vamos! Acredite, podemos mudar, colaborar!
Artigo publicado no jornal "A semana", no dia 25/01/16.
domingo, 27 de dezembro de 2015
Artigo Diário de Caratinga
O verde está
ficando cinza
Walber Gonçalves de
Souza
Encontramos
uma terra em que se plantando tudo dá. Esta foi uma das características
apontadas por Caminha, escrivão da esquadra de Cabral em 1500, para descrever o
local que eles acabam de "achar". Desta maneira ele quis demonstrar
uma das qualidades daquelas terras recém "descobertas".
As
cores nacionais estampadas na nossa bandeira demonstram nossas riquezas, mas
neste texto destacarei uma, o verde que representa toda a diversidade ambiental
do nosso país, nossas matas e sua biodiversidade.
Associando
o pensamento de Caminha e o verde da bandeira, podemos chegar a uma conclusão: ambas
retratam a abundância das nossas riquezas naturais e como passamos a ser vistos
e reconhecidos mundialmente.
Mas a
abundância que em si é algo positivo, pois a própria expressão indica fartura,
riqueza, transmite a sensação de uma quantidade de algo que extrapola as
necessidades momentâneas, portanto induz à segurança, ao conforto, cria uma
sensação de que tudo está bem, pois nada há de faltar.
Mas por
outro lado pode-se tornar uma problema, pois ao entrar na zona de conforto
corremos o risco de deixar de tomar medidas que são necessárias para a manutenção
e até mesmo para aumentar tudo aquilo
que já tínhamos em abundância.
Dito
tudo isto, vejamos o que aconteceu no nosso país: durante anos ficamos
extraindo uma árvore, que ganhou o nome de pau-brasil, pensando que nunca iria
acabar, o resultado é que há resquícios de mata atlântica aqui e acolá e muitos
brasileiros nem conhecem esta famosa planta. Pelo visto não aprendemos a lição
e estamos fazendo a mesma coisa com a floresta amazônica. Como aqui em se
plantando tudo dá, nossos práticas provocaram o esgotamento do solo de parte do
nordeste brasileiro, ao cultivar durante décadas a cana de açúcar, depois fomos
para a região sul e continuamos com a mesma forma de manejo tendo com base a
monocultura. O desfecho foi, regiões que apresentam alto índice de áreas
desertificadas, "terra morta". E pelo visto a história tende a se
repetir na região centro-oeste.
A
região sudeste não passou despercebida aos olhares evolutivos do ser humano.
Somos a região da política do café com leite, portanto duas práticas de desenvolvimento
econômico ligadas diretamente ao meio ambiente, ou seria ao descaso do uso dele,
os dias atuais respondem a esta inquietação! Mas não podemos esquecer algo muito pertinente ao momento presente que
tem sua raiz em épocas remotas, recordemos o ciclo do ouro, que acabou ganhando
a companhia de outros minerais, ratificando ainda mais o nome do nosso estado
Minas Gerais, muitas minas em todos os lugares. O desfecho de tudo isto, pergunte
aos moradores das margens do Rio Doce e
encontrará a resposta.
Somos a
caixa d'água do planeta. O paraíso na terra. Nunca vai faltar água por aqui.
Nossos rios são abundantes. Enfim, quantas afirmativas deste tipo você já
ouviu? Aposto que além destas tantas outras. Mas onde está a água? Que angústia estamos
vivenciando nos nossos lares. Muitas vezes a torneira insiste em ficar
silenciosa. Quem sabe o silêncio dela não é uma alerta para a nossa
consciência.
Nossa
maior riqueza, a abundância, transformou-se no nosso maior problema. Pois criou
uma mentalidade de que podíamos viver de qualquer forma, de qualquer jeito, sem
se preocupar com nada. E assim anos após anos fomos desenvolvendo, criando,
mudando sem nenhuma preocupação com as conseqüências que os nossos atos
poderiam provocar ao meio ambiente, ao equilíbrio do ecossistema.
O
conceito de Desenvolvimento Sustentável é muito pertinente pois sinaliza
posturas que deveríamos ter para continuar nosso processo de desenvolvimento mas
de forma consciente. Ensina-nos que a abundância que temos merece ser bem administrada
para continuar existindo e sendo fonte de possibilidades para que cada um de
nós também possa continuar existindo.
O verde
que simboliza nossa biodiversidade não pode perder a sua cor. Caso contrário num futuro muito próximo teremos que
mudar a cor da nossa bandeira, o verde está ficando cinza.
Walber Gonçalves de Souza é professor do Centro Universitário de
Caratinga - UNEC.
Crônica Diário de Caratinga
Guerra civil
silenciosa
Walber Gonçalves de
Souza
Entendemos
por guerra civil o conflito existente entre os membros de uma própria nação,
geralmente grupos que brigam entre si por algum objetivo. De um modo geral
estes grupos são formados pela minoria da população, mas seus efeitos são
praticamente percebidos e vivenciados por todos. A violência e o terror são as
características principais que alimentam os conflitantes.
Em
alguns lugares a guerra civil está escancarada, um exemplo atual seria o
conflito entre os sunitas e xiitas, dando origem ao famoso estado islâmico e
seus feitos. Historicamente poderíamos destacar os seguintes países que foram e
alguns ainda são palcos de guerras civis cruéis: o apartheid na África do Sul,
Camboja, Irlanda do Norte, Síria, Congo, Caxemira, Haiti, Uganda, Angola... e
tantas outras espalhadas mundo afora que formam um lista considerável.
Mas
vivemos no Brasil, em um país de povo pacífico, amável, acolhedor, que está
sempre de braços abertos. Portanto, não devemos temer, pois nunca correremos o
risco de vivermos uma guerra civil. Será?
Aproveite
um domingo, durante o dia, para fazer uma caminhada pela cidade onde você mora e faça o seguinte exercício: caminhe
vagarosamente pelas ruas do bairro em que você reside e vai observando as habitações
com calma, com raríssimas exceções chegará à seguinte conclusão; praticamente
em todas elas será possível verificar a existência de grade nas janelas,
portões, muros, em algumas cerca elétrica e monitoramente via câmeras.
Outra
experiência que você poderá fazer, embora esta eu não aconselho, é sair pela
madrugada e caminhar pelas ruas, você encontrará muitas pessoas pelas esquinas,
vivendo o submundo que envolve o tráfico de drogas. E infelizmente estão
prontas para tudo, roubar, matar, prostituir... Em várias cidades as pessoas têm
medo de sair à noite, em outras existem locais que você pode entrar ou passar,
mas não sabe se sairá vivo ou conseguirá concluir o seu trajeto em paz.
Aos
poucos vai nascendo de forma silenciosa um guerra civil, onde o medo e a
impunidade faz com que as pessoas se tranquem em suas próprias casas. Em
contrapartida a minoria que aterroriza e está disposta a tudo domina as ruas,
os bairros, criando uma sensação de insegurança.
Todos
os dias as páginas dos jornais e as reportagens dos telejornais estão repletos
de pessoas assassinadas, roubadas, cada crime que acontece que faz nascer uma
pergunta cruel: como pode o ser humano ter coragem de fazer uma coisa dessas? Ou
até mesmo a seguinte exclamação: a que ponto está chegando o ser humano!
Algumas capitais de Estado parecem estar vivendo uma guerra civil aberta, todos
os dias morrem inúmeras pessoas vítimas desses conflitos.
Sabemos
que não podemos ser simplistas em relação a este problema, nem tão pouco fingir
que ele não está acontecendo. Mas entre as várias causas, destaco a crescente e
manipulada opinião pública que prega contra as autoridades constituídas. As
instituições estão perdendo o seu papel e com a decadência delas o caos se
generaliza.
Podemos
afirmar com toda a certeza do universo que existem pais que são maus pais, que
não cumprem com o seu papel de provedores dos seus filhos e do lar. Da mesma
forma, que existem em todas as profissões maus profissionais. Não podemos
também tampar o sol com a peneira e infelizmente constatamos que nas mãos de
alguns daqueles que deveriam cuidar da segurança, portanto os nossos agentes de
segurança pública, os policiais, há muita sujeira, corrupção, desonestidade,
situações que mancham as instituições às quais eles pertencem. Mas este é o grande
problema, acreditar que estas pessoas são a maioria. Assim não se "combate" os maus pais, os maus
profissionais, os maus policiais. Acham mais fácil acabar com a família,
permitir que qualquer pessoa de qualquer jeito se torne um profissional de
qualquer área e denegrir as instituições policiais, como se todos os policiais
não prestassem.
Combatendo
os maus abriremos espaços para os bons, para os justos, para aqueles que
cumprem com orgulho as atribuições para as quais foram designados. Não podemos permitir
que em nome da impunidade e dos maus (que acredito ser a minoria) se instale nas
nossas cidades uma silenciosa guerra civil, pois no dia em que ela se tornar
evidente aí sim, nossas casas irão se tornar definitivamente a nossa prisão.
Walber Gonçalves de Souza é professor do Centro Universitário de
Caratinga / UNEC.
Artigo Diário de Caratinga
TRAVESSIA
Crônica publicada no dia 08/12 no Jornal Diário de Caratinga.
Fim de ano chegando, momento de parar para festejar, para rever amigos, colocar aquelas coisinhas que ao longo do ano foram se acumulando no lugar e também a época de reavaliar a vida, nossos pensamentos, valores e atitudes.
Como diria Fernando Pessoa, “há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia e se não ousarmos fazê-la teremos ficado para sempre à margem de nós mesmos”
Uma das características da complexidade humana é justamente a nossa capacidade de mudar, desde que haja necessidade e vontade, é claro. Algumas mudanças fogem ao nosso controle pois fazem parte do desenvolvimento biológico, fazem parte da natureza humana, nascer, crescer, desenvolver-se e deixar o legado para a prosperidade da própria humanidade. Agora, outras são frutos das nossas escolhas, do ambiente cultural em que vivemos, das pessoas com que nos relacionamos, dos sonhos e esperanças que cultivamos.
Ao longo da vida, portanto, passamos por vários ciclos independentemente se eles são próprios da natureza humana ou se são frutos das nossas escolhas. Assim, estamos vivendo eternos momentos de travessias, que representam as nossas passagens por estes ciclos, até que eles se completam e outros comecem, dando início a uma nova travessia.
Entre estas travessias podemos destacar algumas que fazem parte das comemorações de fim do ano. Quando alunos estão vivendo seus momentos de formatura, fechando sua travessia escolar, acadêmica, e vivendo a expectativa dos dias vindouros. Outros ainda, terminando o ensino médio e preparando-se para dar início ao mundo universitário.
No dia a dia da vida nos deparamos também com momentos de travessias diversas, a casa que finalmente ficou pronta para tornar nossa moradia ou a reforma que revigorou o ambiente; a viagem dos sonhos que foi realizada; o casamento de algum ente querido; a gestação de um filho; o fim de um ciclo em algum emprego; a mudança para um nova casa numa nova cidade; o fim da vida de solteiro ou do casamento; pessoas que deixam a nossa vida, pessoas que entram na nossa vida; enfim, são intermináveis as situações que podem nos proporcionar situações de travessia.
Mas devemos ter consciência que as travessias não são fáceis, exigem renúncias, mudanças, quebras de paradigmas. Um exemplo simples da minha época de infância, período de férias escolares, lembro-me da pinguela que até hoje está localizada no mesmo lugar unindo as margens do Rio Caratinga, mas que seria necessário transpô-la para que minha família pudesse chegar até à casa dos meus avós que moram na zona rural. Ainda em casa o frio na barriga aparecia e com ele o medo de cair no rio, mas a vontade de revê-los e estar com os primos que reuniam-se neste período era maior possibilitando assim que aquela barreira mental fosse ultrapassada.
Mas devemos ter consciência que as travessias não são fáceis, exigem renúncias, mudanças, quebras de paradigmas. Um exemplo simples da minha época de infância, período de férias escolares, lembro-me da pinguela que até hoje está localizada no mesmo lugar unindo as margens do Rio Caratinga, mas que seria necessário transpô-la para que minha família pudesse chegar até à casa dos meus avós que moram na zona rural. Ainda em casa o frio na barriga aparecia e com ele o medo de cair no rio, mas a vontade de revê-los e estar com os primos que reuniam-se neste período era maior possibilitando assim que aquela barreira mental fosse ultrapassada.
Mas em todas elas floresce algo de importante, incrementa novas possibilidades de aprendizado, do surgimento de novas amizades, descobertas inesperadas, proporcionando um novo mundo que colabora para o nosso aperfeiçoamento humano e intelectual.
Não querer conviver com as travessias é deixar o mofo invadir a alma, significa paralisar-se aos convites que a vida nos oferece a todos os instantes proporcionando-nos possibilidades infinitas de sermos melhores. Não querer conviver com as travessias é permitir o definhamento da existência, passando pela vida sem que ela se gaste em plenitude. Não querer conviver com a travessia significa querer estocar algo que não se estoca, a própria vida, que possui dinâmica própria mas permite-nos por os adornos.
Assim, a intensidade da coragem que permite a travessia é a mesma intensidade da felicidade de chegar na outra margem do rio, de curtir uma roupa nova, como diria Fernando Pessoa, de descobrir que há novas possibilidades, que há novos horizontes, que como diria Cazuza "a vida não para".
Lulu Santos na canção "Tempos modernos" dizia, "eu vejo um novo começo de era, de gente fina, elegante e sincera, com habilidade pra dizer mais sim do que não". Milton Nascimento e sua famosa música "Travessia" e tantos outros autores que se debruçaram sobre este tema transformando-o em arte, convoca-nos para uma reflexão: só há travessia para quem se permite atravessar.
Walber Gonçalves de Souza é professor.
domingo, 6 de dezembro de 2015
NOSSAS LEIS SÃO ILEGAIS E IMORAIS?
Artigo publicado (01/12) no Jornal Diário de Caratinga.
Lembro-me de uma propaganda de biscoito que tinha o seguinte slogan: “tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”. Parafraseando o marketing do produto digo: o brasileiro é corrupto porque nossa lei é corrupta ou a lei é corrupta porque o brasileiro é corrupto? Que sinuca de bico conseguir uma resposta convincente para esta questão.
Como cidadão percebo que os três poderes da nação (executivo, legislativo e judiciário) estão presos nas artimanhas das leis que eles mesmos criaram. As intermináveis interpretações e jurisprudências estão deixando nossa nação à deriva, como um barco sem rumo. A luz da lei não está clara, depende de quem conduz a lanterna, de quem dá foco e direção ao facho de luz. E é justamente isto que faz com que interesses particulares sobreponham aos interesses da nação.
E talvez a causa de tudo isto nasça justamente de como todo o processo de formação das leis acontece. Quando o eleitor, de forma corrupta, desonesta, interesseira, se omite, votando em qualquer um ou vende seu voto ele está dando o primeiro passo para toda esta tragédia política que estamos vivendo atualmente. Pois, eleito um corrupto, podemos ter certeza que as leis que ele irá criar serão para proteger a si mesmo e aos seus atos.
Para piorar, aqueles que ocupam os cargos no judiciário, na sua grande maioria, mas acredito que sejam todos, estão ali justamente porque foram indicados diretamente pelos eleitos pelo nosso voto, os nossos representantes do executivo e legislativo. Parece legal, mas não é não! Pense bem, vou citar uma situação como exemplo: um deputado cria e aprova uma lei que parece ser fenomenal, juridicamente perfeita, mas deixa uma pequenina brecha de ambiguidade no último parágrafo do último artigo da lei, totalmente digna de interpretação, depois ele colabora na aprovação de quem será o membro do Supremo (esfera nacional), do Tribunal de Justiça (esfera estadual) ou até mesmo dos juízes (esfera regional) que ocuparão as vagas existentes nos fóruns em todos os cantos do Brasil. Matou a charada? Estes serão os responsáveis por interpretarem as leis ambíguas que foram criadas por quem os indicaram. Assim nasce a ciranda maldita das relações políticas nas terras tupiniquins. Quando acreditamos que as coisas vão acontecer, que agora vai dar certo, que as coisas vão tomar rumo, a sensação de frustração aparece, foi muito barulho pra pouco resultado e tudo, com raríssimas exceções, acaba na famosa pizza.
Mas alguém poderia estar pensando: nossa justiça está funcionando, tenho visto várias pessoas serem presas e condenadas. Ai é que entra a moral de outro ditado popular, “toda regra tem a sua exceção”, nem todos os membros do poder judiciário compactuam ou seguem a cartilha do escárnio da política brasileira. Pena que estes são a infinita minoria, pois têm a coragem de enfrentar um sistema montado para não funcionar de forma correta e justa. Não podemos esquecer também que nossa história é cheia de bodes expiatórios que morrem e são condenados para livrarem a culpa das costas dos comparsas, que como ratos às escondidas continuam a devorar silenciosamente os produtos das despensas, gavetas e armários. Continuam a depenar o erário da nação!
A reforma que queremos e precisamos é muita mais ampla. Faz-se necessário mudar uma série de coisas e um bom começo seria dar autonomia para a formação hierárquica do poder judiciário, onde o mérito realmente seja a escada que levará à ascensão na carreira e não a continuação deste promíscuo processo de indicação para os cargos superiores dentro do judiciário. Indicações que não almejam a competência técnica simplesmente, mas sim a competência em fazer da lei um escudo para a impunidade. Percebo que se criou um ciclo de intervenções políticas que afasta o mérito e estabelece um corporativismo mesquinho entre os poderes.
A reforma que queremos deveria passar também por leis claras, onde as ambiguidades não estejam tão presentes, dando brecha ao famoso jeitinho brasileiro de interpretações por interesses. Onde já se viu um pilantra transfigurado em forma de representante popular ter direito a foro privilegiado, à imunidade parlamentar! É brincadeira, é zombar descaradamente de cada um de nós cidadãos brasileiros. Sem falar em uma série de leis que estão defasadas.
Nossas leis estão presentes em quase tudo menos na realização da justiça. Pelo visto, a dita Constituição Cidadã de 1988 ainda carrega a essência conservadora, elitista e segregadora da Constituição da Mandioca de 1824.
Walber Gonçalves de Souza é professor.
sexta-feira, 27 de novembro de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)








