quarta-feira, 25 de março de 2020
Lançamento de livro
Alguns momentos do lançamento do livro: "Psicologia e dilemas contemporâneos". Lançado dia 06 de março de 2020 no auditório do Centro Universitário de Caratinga - UNEC.
Artigo de opinião
Doenças que assustam
Provavelmente um dos grandes dilemas e desafios que assolam a humanidade é combater a autossuficiência que insiste em fazer morada em nós. Um sentimento silencioso e ao mesmo tempo traiçoeiro, mas que persegue a existência humana, fazendo com que nos percebamos donos de tudo e de todos.
A cultura do poder, em todas as suas manifestações e formas, que envolve a alma humana, estabelece condições para a disseminação e proliferação do sentimento de autossuficiência. Acreditamos ser poderosos demais, acreditamos que conseguimos controlar tudo, que podemos tudo, que somos “espertos” demais.
Mas nem sempre é assim, a vida na sua dinâmica, que a cada dia se torna mais global, se encarrega de mostrar ao ser humano que ele é extremamente frágil, pequeno, e que nem sempre consegue controlar todas as situações que cercam a sua vida.
Vivemos uma pandemia provocado pelo Covid-19, o famoso coronavírus, estamos tensos, espantados, temerosos. O mundo lentamente está parando, a ordem é ficar em casa, evitar lugares com aglomerações de pessoas. Nossa fragilidade se estampa nos comunicados oficiais e nos noticiários.
Não é a primeira vez e acredito que não será a última pois a história nos mostra que de tempos em tempos aparecem doenças que assustam a humanidade. Todavia, o que se percebe é que o tempo entre uma pandemia e outra parece a cada dia se encurtar mais.
A humanidade vivenciou o tempo dos leprosos, da peste bubônica, da gripe espanhola, da gripe suína, do vírus ebola, entre tantas outras, que foram se juntando ao câncer, à diabetes, Alzheimer, enfim, a uma série de doenças que aos poucos estão se tornando cada vez mais presente entre nós.
E todas elas sinalizam numa direção, por mais que estejamos evoluídos, desenvolvidos tecnológica e cientificamente, ainda somos incapazes de dominar tudo, quando achamos que estamos controlando o mundo que nos cerca, aparece algo que mostra o contrário.
Isto possibilita uma nova oportunidade que a vida nos dá para repensar nossa existência, para pensar como estamos lidando com o mundo, como estamos vivendo, quais são nossos hábitos e costumes, como estamos tratando as pessoas, como estamos nos reconhecendo.
Pode parecer clichê, mas é estranho demais como somos capazes de criar situações que nos colocam em perigo. Nossas ações, sempre pautadas num progresso que beira o egoísmo que leva ao olho por olho, dente por dente, acaba por criar cenários de desespero coletivo.
As doenças assustam não porque são simplesmente doenças, mas porque invadem barracos e castelos, casebres e mansões. Elas assustam porque não escolhem grupos, pessoas ou situações, na verdade somos todos vulneráveis a elas, sendo suscetíveis aos seus efeitos.
Só espero que a globalização das doenças nos permita globalizar a sabedoria humana também.
Artigo de opinião
A importância dos ídolos
A vida em sociedade acaba por reservar a certas pessoas uma importância e reconhecimento muito além das demais. Elas ultrapassam a barreira do desconhecimento, do anonimato e tornam-se para muitos um ídolo. Portanto, uma pessoa que representa algo que pode beirar ao sobrenatural. Por isso provocam os mais diversos tipos emoções e reações.
Acredito que a vida de uma pessoa que ganha a conotação de ídolo não deve ser nada fácil, principalmente em relação à privacidade. Muitos são os exemplos de pessoas, que ao se tornarem famosas, transformaram suas vidas em um pesadelo; não conseguiram lidar com o ônus de uma vida exposta ao extremo.
Por outro lado, tantas outras utilizam desta mesma fama, não só para alcançarem o sucesso material, mas também para abraçarem alguma causa de cunho social. Assim, alguns utilizam de suas imagens para combaterem as mazelas da sociedade na qual se encontram, ou até mesmo, algumas de repercussão mundial, como a fome, a violência, a educação de péssima qualidade e o preconceito.
Todavia, no Brasil, nossos ídolos não perceberam a importância de suas imagens, não perceberam que de suas ações, palavras, ou até mesmo quando se omitem, acabam sendo exemplos para milhares de pessoas. Pois afinal, a figura do ídolo, se torna referência, um modelo ou até mesmo um estilo de vida.
Basta um corte de cabelo, uma tatuagem, uma expressão, um jargão, um sinal, que rapidamente viraliza, tornando-se presente na convivência interpessoal. A ação de um ídolo ultrapassa as barreiras do entendimento, da racionalidade e vira modismo na grande maioria dos casos.
Por isso, a figura que se constrói e ao mesmo tempo se esconde atrás de uma pessoa, que se torna ídolo, acaba por se tornar de importância social. Situação que vai além de qualquer forma de controle. Pois delas podem surgir ou emergir na sociedade o exemplo que produzem.
Nossa sociedade é repleta de figuras que são identificadas como ídolos. Mas o que gera estranheza é como a maioria deles agem, que exemplos propagam. Poderíamos nos perguntar, primeiramente, quem são os principais ídolos da nossa sociedade? E logo em seguida, que qualidades eles propagam? Que exemplos são transmitidos por suas ações?
Parece que podemos agrupá-los em dois grupos. Em um deles, aqueles que se omitem em qualquer ocasião, que chegaram no auge, mas nunca tiveram a coragem de defender nenhuma bandeira de significância para a sociedade. Já no outro grupo, estão aqueles que vivem aprontando, utilizando de suas imagens para propagar justamente aquilo que mais fere a sociedade atualmente: o feminicídio, o abuso contra mulheres, o tráfico, a falsidade ideológica, enfim, situações que denigrem o ser humano.
Já cantava Elis Regina: “nossos ídolos ainda são os mesmos e as aparências não enganam não”. Pelo visto ela tinha razão, basta apenas querer ver. Talvez aí esteja o problema.
Artigo de opinião
Viu, sentiu compaixão e cuidou dele
Na era da sociedade denominada de modernidade líquida, em que o individualismo se torna a sua principal característica e que tudo parece se desfazer em uma velocidade alucinante, praticamente nada permanece por muito tempo, ao contrário tudo passa muito rápido, como se fosse descartável. Assim neste contexto que ganhou o codinome de praticidade, pensar no outro é uma prática que a cada dia paulatinamente fica mais distante.
Somos marcados por um egoísmo sem limites, pela total desconfiança de uns pelos outros, acredito que nem o mito de Narciso, no auge do seu narcisismo, conseguiria expressar com tamanha fidelidade o que estampa nossa sociedade. Olhar para o próprio umbigo nunca foi tão significante. Todavia estamos pagando um alto preço, basta pensarmos sobre as grandes aflições que assolam a humanidade.
Nesta direção, nada mais oportuno que o tema proposto pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para a reflexão da Campanha da Fraternidade de 2020, eis o tema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”.
Um convite singular que nos provoca a uma autorreflexão: que o outro precisa ser notado, observado, visto, amado e principalmente cuidado. Um convite que propõe a ruptura do sentimento de inércia, de indiferença, de isolamento e até mesmo de solidão, que aos poucos vão ganhando raízes e se aprofundam em cada um de nós, deixando-nos frios, mesquinhos, cegos e descrentes da própria humanidade.
Perceber o outro, querer bem ao outro, torcer pelo sucesso do outro, acolher o outro, talvez seja um dos nossos maiores desafios. E não basta só ver, saber que existe, é preciso sentir, ter compaixão, e acima de tudo agir, cuidar, colaborar para que o outro cresça também, se desenvolva, tendo as oportunidades que lhe são pertinentes.
Não podemos mais ser indiferentes à pobreza que se mostra no rosto de milhares de pessoas famintas, perpetuando-se na sociedade das desigualdades que mantemos; não podemos mais ser indiferentes às mulheres que sofrem as mais diversas formas de brutalidades, como se o problema fosse só de quem apanha; não podemos mais ser indiferentes em relação aos moradores de rua, as crianças abandonadas, aos dependentes químicos, como se não tivéssemos nada com isso; não podemos mais ser indiferentes ao outro como se ele simplesmente não existisse.
Necessitamos cuidar, deixar brotar em nós esse sentimento de perceber o outro em sua totalidade. Mais do que ver o necessitado é preciso tentar se colocar no lugar da pessoa, pois só assim teremos compaixão e por consequência nascerá a coragem que estimulará a busca por mudanças. Lembrando que existem vários tipos de necessidades, como amor, afeto, compreensão, presença, alimento, dignidade... enfim, necessitamos de tudo que nos torna seres melhores. Tenhamos a coragem de ver, perceber e cuidar.
terça-feira, 24 de março de 2020
Coronavirus : Fragilité humaine et voie de l'espoir.
Coronavirus : Fragilité humaine et voie de l'espoir.
Par: Elibien
Joseph
Belo Horizonte-Brésil
Depuis le début du nouvel an, le monde fait face à une situation très complexe : celle de la
propagation de la pandémie dénommée coronavirus ou Covid-19. Aujourd’hui, cette situation interpelle tout le monde, qu’on
soit chrétien ou non chrétien à réfléchir sur le sens de l’existence humaine. Les relations
humaines exigent de nouvelles perspectives: la distance, les soins personnels
et collectifs ainsi que des disciplines appropriées. Beaucoup des gens pensent
que le phénomène en question serait «l'accomplissement des prophéties» et le
«temps apocalyptique». Ces personnes considèrent également ces signes en vigueur comme moyen par lequel Dieu fait
connaître son message révélateur (cf. Ap 1,1) à travers des phénomènes
mystérieux pour implanter son Royaume parmi les hommes (11, 15). Compte tenu de
ce qui précède, les questions sont pertinentes: toutes les interprétations
sont-elles correctes? Comment l'être humain devrait-il lire les signes des
temps du point de vue du mystère révélé, c'est-à-dire, Jésus-Christ ?
L'itinéraire évangélisateur de Jésus-Christ a
marqué une nouvelle forme de relation humaine pour proposer et établir un monde
inclusif. C'est un message d'espoir pour les exclus. De même qu`au temps de
Jésus comme aujourd'hui en ce XXIe siècle, l’être humain est totalement indifférent
à la douleur et aux cris de ses semblables. Il suffit de jeter un coup d’œil sur
l’inégalité qui existe entre les pays du Nord et ceux du Sud, entre les riches
et les pauvre surtout les marginalisés. Ils sont rejetés devant la société,
avec peu de souci d'améliorer la qualité de vie des plus fragiles. En effet, ces
aspects mettent en évidence la nécessité d'une nouvelle relation avec la
nature. Et c’est dans cette perspective
que le pape François exhorte dans son encyclique « Laudato Si», non
seulement aux chrétiens, mais aussi à tous les êtres humains à développer un
soin particulier pour la maison commune, approfondissant ainsi l'écologie
intégrale.
Le Covid-19 interroge les êtres humains sur la façon dont ils se rapprochent
à eux-mêmes, aux autres, à la nature et à Dieu, en
particulier dans les moments d'intégration humaine: moments de fêtes, de
partage, de célébrations, etc. Y a-t-il vraiment une harmonie avec toutes les
classes, en particulier avec les marginalisés ? Peut-on dire que cette pandémie
montre qu'il n'y a qu'une seule race, la race humaine? Oui, il n'y a pas de classe,
de statut social ou d'être humain meilleur qu'un autre. Ce qui existe, c'est la
classe humaine, très fragile dans son parcours existentiel. Nous sommes tous (pauvres,
classe moyenne, riches, bourgeois…) dans
le même bateau. En fait, les initiatives
de «rester à la maison» fermer les frontières au niveau mondial, annuler toutes
les activités sociales, culturelles et religieuses peuvent stimuler des
situations défavorables, telles que l'insécurité, la peur, la panique, entre
autres sentiments paralysants.
En fin, cette pandémie peut être lue comme un message de sensibilisation
sociale dans un moment opportun pour renforcer l'humanité et le sens
patriotique parmi les nations, la recherche du bien-être de tous. C'est aussi un
moment propice pour discerner et réfléchir sur la possibilité de créer de
nouvelles relations humaines basées sur la compassion, l'équité et l'amour;
essayer de surmonter l'injustice, l'indifférence et découvrir l`essence même de
la maîtrise de soi. Dans la foi,
l'espérance et la charité, marchons dans la lumière du Christ, en croyant
toujours dans l'amour, la miséricorde et la compassion de Dieu pour le monde, afin de
faire face à cette pandémie.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
Eu queria ser a doméstica do Guedes
Pelo que se observa pelas atitudes e palavras, nossos líderes não conhecem o povo do qual lideram ou deveriam liderar.
Recentemente o ministro Paulo Guedes insinuou que as trabalhadoras domésticas vivem em uma farra turística, viajando com certa frequência para os Estados Unidos. Pelas suas palavras acredito que ele não conhece a realidade do povo brasileiro. Talvez por ter vivido boa parte da sua vida em outras terras, ou até mesmo pela insensibilidade de quem só vive nos altos padrões de luxo, em uma bolha de alienação social.
Sei que ele quis forçar uma expressão para justificar sua análise sobre a alta do dólar, mas foi de uma total infelicidade, como diria no jargão popular, perdeu uma grande oportunidade de ficar calado.
Basta um pouco de percepção social para verificar: quem no Brasil possui condições de sair da sua própria cidade para fazer turismo? Para conhecer lugares inusitados, divertidos, praias, resorts, enfim, quem dentro da realidade socioeconômica do país pode ser considerado um turista de fato? Sei que em tese todos podemos ser, mas a realidade que bate à porta dos trabalhadores brasileiros todos os dias, apontam e forçam o contrário.
Os poucos que conseguem viajar, pelo menos uma vez por ano, fazem um esforço megaextraordinário em suas finanças, sendo até chamados de farofeiros. Lembro-me de uma vez em que o governador de um estado praiano criticou vários turistas, justamente por os considerarem farofeiros. Portanto, os mais pobres, a massa trabalhadora, para o governante estas pessoas não eram bem-vindas a seu Estado.
Quem dera se os trabalhadores brasileiros, neste caso específico representados pelas domésticas, pudessem ao menos desfrutar de um mínimo de dignidade. Somos um povo que sofre com o descaso na educação, que pode ser considerada de péssima qualidade; somos um povo doente sem uma assistência que ampara seu sofrimento. Basta visitarmos os hospitais públicos para nos depararmos com o caos em que a saúde se apresenta; somos um povo que ao receber o salário faz mágica para conseguir sobreviver.
Mas para o Guedes, isto não acontece, para ele nosso salário de fome permite fazer coisas extraordinárias. E o pior, da forma que expressou como se fosse algo proibido, como se os trabalhadores mais simples não pudessem viajar para outros países, demonstrando em suas palavras, pelo que se percebe, um sentimento preconceituoso e de desconhecimento da realidade vivida pelo brasileiro.
Portanto, eu queria ser a doméstica balbuciada pelo Guedes, quem sabe assim poderia viajar, conhecer o mundo e com o dólar alto, optar por conhecer os rincões do Brasil. O que eu não quero na verdade é ser o Guedes pois ele ainda acredita que um país rico pode ser um país que faz vista grossa e finge que a pobreza não existe.
Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020
A educação precisa ser a prioridade do Brasil

Artigo publicado simultaneamente nos jornais:
Estado de Minas, Diário de Caratinga, Diário Popular, Capital News, (MS), Diário do Rio Doce, Vargem Alegre News, Folha de Babitonga (SC) e O Povo (RJ).
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020
A Educação precisa ser a prioridade no Brasil
O mês de fevereiro marca o retorno das atividades escolares em praticamente todo o país. O início do ano escolar faz com que a rotina das famílias e das cidades se modifique. Assim, todas as manhãs poderemos contemplar milhares de crianças e adolescentes caminhando pelas ruas rumo à escola, bem como os engarrafamentos provocados pelo tráfego de carros nas portas e ruas próximas das escolas.
Começamos, portanto, mais um ano de práticas educacionais. Mas sinceramente, a sensação que continuo tendo é que a educação ainda não é a prioridade em nosso país. Ainda não acreditamos que é através de uma educação de qualidade que poderemos reverter nossas mazelas sociais. Podemos até ter escolas, mas ainda estamos longe, muito longe, de ter educação, no sentido mais profundo do vocábulo.
Um dia desses, em uma entrevista, um governador de Estado disse, numa conotação pejorativa, que o professor é um gasto. Mas o que não seria no sentido pleno da expressão? Nossas notas nos indicadores internacionais há décadas não avançam. Nas escolas hoje em dia faz-se quase tudo, menos ciência. Não que as demais situações vividas nos ambientes escolares não sejam importantes, mas seu principal objetivo que deveria ser o avanço das descobertas científicas, pois elas promovem o desenvolvimento social e econômico do país, não são valorizadas e nem tão pouco incentivadas.
É de conhecimento público e notório, que lemos pouco ou quase nada; que somos considerados fracos nas disciplinas pilares: português e matemática; que temos um sistema educacional que não consegue avançar. Não temos uma diretriz, um norte real, toda hora as coisas mudam de ordem, se alteram sem se modificar de fato, mudam-se os nomes para se referirem às mesmas coisas, como se isso fosse a grande inovação. E com ares de tragédia grega, até hoje não teve uma edição do ENEM que não teve problemas. Esse é o nosso Brasil!
E assim, a educação finge que é feita em nosso país. E assim, as pessoas fingem que estão estudando. E assim, os governos propagam seus feitos com ares de grandiosidade. E o que de fato interessa fica renegado ao último plano: educação de qualidade. Queremos escolas, diplomas, formaturas, índices, mas ainda, dizemos não ao ato de aprender. E quem quer o contrário, que não são muitos, vê-se remando contra a maré.
Parece chover no molhado, defender sempre a mesma bandeira, mas enquanto no Brasil, através dos seus gestores, não se promover uma educação que provoque alterações significativas nas entranhas sociais, ela continuará como sempre foi, servindo aos interesses de poucos. Uma “educação” que perpetua o desnível social, cultural e econômico, mesmo propagando o contrário. Precisamos urgentemente avançar, educação já!
(*) Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor.
quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Artigo de Opinião
SEMPRE TEMOS UMA BOA JUSTIFICATIVA PARA CONTINUARMOS OS MESMOS

Para muitos pesquisadores nós brasileiros somos merecedores de um profundo estudo. Decifrar a nossa personalidade coletiva é uma missão que beira o impossível, pois além do famoso “jeitinho brasileiro” que nos é bem peculiar e conhecido por todos, acrescentaria uma outra característica que se enraíza cada vez mais na nossa sociedade que é a nossa imensa capacidade de inventarmos sempre uma boa justificativa para tudo.
Todavia, essa capacidade de justificativa serve única e exclusivamente para permanecermos os mesmos. Dela não brota nada que direciona a uma nova tomada de postura. Justificamos tudo para não mudarmos nada.
Sempre temos uma justificativa na ponta da língua que acompanha e explica a nossa inércia frente aos diversos aspectos da vida em sociedade. Somos geniais na arte de inventar justificativas e desculpas.
Só que essa “genialidade inventiva” nos cega, não permite que evoluamos nas questões sociais. Justificar por justificar cria uma sensação de que as coisas não precisam encontrar uma outra solução. E assim vamos nos atolando nos nossos velhos dilemas que se perpetuam na nossa sociedade.
Não estudamos e sempre colocamos a culpa no colega que não para de cutucar ou falar; não lemos e dizemos que o livro é caro; colocamos o lixo para coleta em qualquer horário pois o vizinho assim o faz; não respeito à lei pois ninguém respeita; quero ser sempre o primeiro, pois aprendi que o mundo é dos espertos; e assim, entre milhares de outros exemplos, vamos construindo nossa sociedade.
Por isso é tão comum usarmos os outros para escondermos nossos atos. Quem nunca disse ou ouviu aquela velha máxima: “como todo mundo faz eu também faço”?! “E assim começamos a justificar (nossos erros). E uma vez que você justifica algo, você pode fazer isso de novo e de novo. Torna-se mais fácil. O certo e o errado se confundem”.
Claro que tudo é explicável, mas a questão não é essa, nossas justificativas não são usadas para corrigir ou mudar as coisas, muito pelo contrário, são usadas simplesmente para justificarem o porquê de não fazermos as coisas, como se isso fosse o ideal. Com a justificativa mantemos a convicção de que estamos certos, mesmo tendo plena consciência do contrário.
Portanto, se queremos eliminar, acabar com os nossos males sociais, devemos ter a coragem de parar de justificar nossos erros. Nossos defeitos precisam ser encarados e dentro do possível eliminados. E tudo é uma questão de hábito.
Enquanto a nossa mentalidade estiver focada na criação de justificativas perderemos a oportunidade de corrigir nossos erros. Erros estes que nos mantêm na terrível e desumana realidade no qual se encontra o nosso país. Precisamos ter a coragem de combater o bom combate, aquele que se trava consigo mesmo.
Walber Gonçalves de Souza é professor e escritor.
domingo, 18 de agosto de 2019
Artigo de opinião
POR QUE ESCONDER A TORTURA?

Há um ditado popular que diz: “contra fato não há argumento”. Os fatos podem ser interpretados à luz das mais diversas ideologias, todavia ele continuará existindo. Mesmo sendo contado e recontado sobre diversas lógicas ele continuará presente no seu devido tempo e espaço.
Há um outro ditado popular não menos interessante que diz: “errar é humano, permanecer no erro é ignorância”. Nunca seremos seres perfeitos, nesta direção combater a autossuficiência deve ser sempre uma meta, podendo ao contrário, proporcionar o espírito da soberba ou até mesmo a insensatez de não reconhecer as próprias falhas.
Na história da humanidade podemos pinçar inúmeros exemplos destas situações. Vejamos um para ilustrar o presente texto: a inquisição foi um fato, por sinal terrível, desumano, torturante e que durante séculos a Igreja Católica se esquivou, procurou de toda maneira escamotear, apagar da memória dos seus fiéis o nefasto episódio, mas um dia a própria Igreja, dentro de uma hombridade que se espera de uma instituição religiosa reconheceu o erro e pediu desculpas pelos seus atos contra a humanidade.
Dentro desta ótica, como negar o nazismo e seu monstruoso projeto? Como negar a escravidão e suas cenas de horrores nas senzalas, nos pelourinhos, nos estupros e tantas outras atrocidades? Como negar o genocídio cometido contra os nativos brasileiros durante o período de colonização? Enfim, como negar centenas de atrocidades cometidas contra os seres humanos em vários lugares do planeta? Por mais que existam correntes que analisam das mais variadas formas os fatos, não há como negá-los.
A ditadura no Brasil e seu mecanismo de tortura é inegavelmente uma dessas atrocidades. Não há como negar. É fato. Pode-se discutir seus motivos, propor horas de análise e discussão, mas não há como fugir da realidade: vivemos no Brasil um período tenebroso, um período em que a tortura foi uma “ferramenta” usada para se “conquistar” as confissões, depoimentos ou até mesmo fruto da covardia de quem detinha o poder.
Não adianta querer passar uma borracha na história, como se isto fosse possível, pois os fatos estão lá, são atemporais, mas precisam ser contextualizadas, refletidos e deles se tirarem as devidas lições, para que em muitos casos não possam ser repetidos.
Portanto, não é escondendo os problemas ou “jogando a poeira para debaixo do tapete” que iremos equacionar nossos conflitos sociais, que se justificam nas devidas questões históricas.
Ficar negando o que é público e notório nunca irá apaziguar o problema. A exemplo do que fez a Igreja Católica é preciso reconhecer o erro. Admitir que as formas usadas não foram as que deveriam. A história também é feita de erros e equívocos. Mas a evolução só acontece com reconhecimento e novas posturas para evitar que os erros se repitam.
Walber Gonçalves de Souza é escritor e professor do Centro Universitário de Caratinga.
terça-feira, 28 de fevereiro de 2017
segunda-feira, 30 de janeiro de 2017
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